Viagens na Minha Terra

A obra “Viagens na Minha Terra”, do escritor português Almeida Garrett, é tida como a única obra do Romantismo português com linguagem e estrutura inovadoras, ela é um documento importante para que se possa compreender a decadência do Império Português e um verdadeiro marco a prosa daquela nação.

Viagens na Minha Terra

Foto: Reprodução

Garrett, o autor, foi durante a primeira metade do século XIX um participante ativo das forças liberais que combatiam na época o absolutismo em Portugal. Chegou a ser exilado em algumas temporadas, e assistiu o liberalismo sair-se vitorioso em 1834, passando para o exercício administrativo e participando ativamente do poder político. De certo modo, a referida obra é um fruto da dupla vivência que o autor teve nesse período, já que coincidentemente – ou não – é composta por dois distintos eixos narrativos: um no qual o narrador transmite as impressões que deteve de suas viagens, intercalando com elas citações históricas, filosóficas e literárias (podem-se levantar citações a Luis de Camões, Homero, Miguel de Cervantes, Willian Shakespeare, Johann Goethe, Napoleão Bonaparte, Bacon, D. Fernando, entre outros); e o outro contando um drama amoroso que se passa no meio do relato das viagens, englobando cinco personagens e tendo ao fundo as lutas entre miguelistas e marginais. A viagem de Lisboa a Santarém é base de inspiração para desenvolver diversas reflexões sobre questões portuguesas de grande importância para a época, assim Garrett idealizou transmitir ao povo uma mensagem de caráter grandemente político por meio de uma narrativa de apelo popular. Como detalhe recorrente em vestibulares e provas importantes, é essencial frisar que a obra fora originalmente publicada em folhetins na Revista Universal Lisbonense durante os anos de 1845 e 1846, sendo no fim de 1846 editada em livro.

Indecisão entre os amores

O início da obra se dá com o narrador expondo sua vontade de viajar, saindo de Lisboa com destino à Santarém. Após relatar os detalhes da viagem, ele chega ao seu destino e, através de uma janela passa a observar o mundo e tecer seus comentários. A partir de então se inicia o romance entre Carlos e Joaninha. Carlos é tido para muitos como um personagem autobiográfico de Almeida Garrett, um homem sentimentalmente instável que tem dificuldades em tomar decisões sobre seus relacionamentos amorosos. A moça Joaninha é prima de Carlos e alvo do seu amor, retratada de forma singela e meiga, sendo a típica mocinha campestre do romantismo, que retrata uma visão ingênua de Portugal, a qual não é sustentável diante da realidade.

Joaninha mora com Dona Francisca, sua velha e cega avó. Uma vez por semana elas recebiam a visita do Frei Dinis, que por sua vez sempre lhes ia levar notícias de Carlos, filho de D. Francisca, sobre o qual ela e o Freu guardavam segredos. Num dado momento, a cidade de Santarém é atingida pela Guerra Civil, e Carlos, que após um desentendimento com Frei Dinis havia partido para a Inglaterra, decide voltar para a cidade. Reencontra então Joaninha e, como se fossem um casal de namorados troca um beijo apaixonado.

O que Joaninha não sabe é que, enquanto esteve na Inglaterra, Carlos conheceu uma moça de nome Georgina, com quem se casou. Trata-se de uma estrangeira de visão inocente que, para não sofrer mais dilemas e conflitos íntimos por suas decepções amorosas, refugiou-se na religião. O rapaz se encontra em conflito consigo sobre contar ou não a verdade para Joaninha. Acaba por ferir-se na guerra e se hospeda próximo ao lar de D. Francisca e a prima.

Choque de realidade

Aproveitando a proximidade, Carlos aproveita para suplicar que D. Francisca lhe revele o segredo que esconde sobre ele, e ela decide atendê-lo. Revela-lhe então, que seu verdadeiro pai é Frei Dinis, e que sua mãe biológica não era ela, e sim uma mulher já falecida. Chocado com tudo o que escutara, Carlos decide partir de volta para a Inglaterra, para sua esposa Georgina, e esquecer tudo o que vivera em Santarém nos últimos tempos.

Ao retornar, Georgina já havia tomado conhecimento, por meio de Frei Dinis, de que o esposo havia se envolvido emocional e romanticamente com Joaninha, e decide abandoná-lo. O rapaz implora seu perdão, alegar ter esquecido qualquer sentimento que um dia sentira por Joaninha, mas Georgina alega não amá-lo mais e recusa suas desculpas.

Por fim, Carlos decide largar as paixões após tanta indecisão e inicia sua carreira política como barão, a qual passa a dedicar-se inteiramente até desaparecer. Georgina decide curar suas mágoas em Lisboa, e parte para lá. Dona Francisca e Joaninha acabam falecendo, e por fim “Santarém também morre; e morre Portugal”, segundo a narração de Frei Dinis.