São Bernardo

“São Bernardo” do autor Graciliano Ramos é um dos mais interessantes e densos romances da literatura nacional. Lançado em 1934, a obra é contada por seu personagem principal, Paulo Honório, que se propõe a contar em retrospectiva toda sua vida – ou o que se lembra dela. O personagem revela uma necessidade palpável de escrever, como se numa última tentativa de compreender as pessoas e situações ao seu redor e, principalmente, de se compreender, de analisar sua visão de ver o mundo, de saber em que momento de sua trajetória se perdeu. É um dos livros capazes de prender o leitor da primeira até a última página, já que o alagoano Graciliano foi um dos mais importantes ícones do movimento Modernista e tinha tino para escrever obras que se tornariam sucessos atemporais. Além de “São Bernardo”, também consta em seu nome os aclamados “Vidas Secas”, “Viagem”, “Memórias do Cárcere”, entre muitos outros. Graciliano Ramos foi um homem de coragem – denunciou fortemente o sofrimento e mazelas do povo brasileiro, em especial a miséria do sertão no Nordeste – e deixa transparecer isso em suas obras, onde cria sem medo personagens que poderiam facilmente ser identificados na vida real, relatando situações do cotidiano na época, expondo corrupção e sentimentos aos quais ninguém se sentia a vontade para conversar a respeito.

São Bernardo

Foto: Reprodução

O início da vida dura

Paulo Honório inicia suas lembranças como uma criança órfã, a qual nunca teve conhecimento do motivo de sua situação ou do paradeiro de seus pais biológicos. Foi acolhido por uma doceira negra chamada Margarida, e já criança vendia cocadas e guiava um cego para que pudesse conseguir alguns trocados.

Pouco tempo depois, começou a trabalhar duro na roça e continuou por lá até seus 18 anos. Sempre estimou o dinheiro, e aproveitava todas as oportunidades que aparecessem para ganhar algum. Perdeu a virgindade nesse período, com uma mulher que não é revelada, e que depois dele se envolveu com João Fagundes. Dominado de ciúmes e sentindo-se engano, esfaqueia João e acaba por ser preso. Na cadeia conhece o sapateiro Joaquim, que o ensina a ler. E cada dia que passava Honório só pensava mais em como juntar dinheiro.

De volta à liberdade

Quando finalmente foi solto, Paulo contatou o agiota Pereira para pegar uma quantia em dinheiro e começar a negociar tudo o que podia. Tendo em foco somente seu objetivo de juntar dinheiro, ele negocia gado e o que mais pudesse ser negociado, passando muitas vezes por frio, sede e fome, sendo injustiçado, mas mantendo sempre a frieza e, se necessário, roubando, fazendo ameaças de morte e outros meios antiéticos.

Consegue em pouco tempo juntar algumas economias e retorna para Viçosa, sua terra natal, com o intuito de comprar a fazenda São Bernardo, onde anteriormente havia trabalhado. Sabendo que a fazenda custava muito mais do que ele poderia juntar, dá início a um plano maligno, aproveitando-se do herdeiro da fazenda, Luís Padilha. Paulo Honório sabia que Luís era apaixonado por bebidas, jogos e mulheres, assim começa a se tornar amigo dele e ganhar sua confiança. Convence o “amigo” a financiar seus projetos, sabendo que eles não trariam qualquer lucro ou sucesso, e a intenção era justamente essa, para que Luís Padilha acabasse falindo e tendo de vender a fazenda por um valor irrisório e muito abaixo do que ela de fato valia. Tudo aconteceu como Paulo havia previsto, e ele consegue comprar a fazenda São Bernardo.

Cada vez mais frio e desonesto

Paulo Honório conquistara o que queria, mas seus planos não haviam acabado, estavam apenas no começo. Um fazendeiro vizinho de nome Mendonça estava segundo Paulo, invadindo alguns metros de sua propriedade, e após muitas brigas Honório conta com o amigo Casimiro Lopes para matá-lo e assim expandir os limites de sua fazenda. Certo de que deveria investir cada vez mais, consegue empréstimos bancários e aumenta o maquinário e produção de mamonas e algodão, além de construir estradas. Monta uma grande rede de relacionamentos, na qual incluía um advogado de nome Nogueira, que manipularia os políticos a favor de Paulo; um jornalista local de nome Gondim, responsável por fazê-lo ser bem visto pela população; e o padre Silvestre.

Vendo a expansão da fazenda, contra o ex dono, Luís Padilha, como professor constrói uma escola de alfabetização para os empregados, com a intenção de agradar ao governador. Manda também que busquem a negra Margarida que o havia criado. Pode parecer que Paulo Honório tornou-se homem trabalhador e de bem, mas não era o caso. Ele cometia toda e qualquer injustiça e atrocidade que considerasse necessária para alcançar seus objetivos, contando com a impunidade que seus contatos lhe garantiriam.

Alguém que ele não pudesse controlar

Num dado momento, Paulo decidiu que era um momento de ter um filho que pudesse desfrutar de tudo o que ele conquistara. Pensou nas irmãs de seus amigos, mas nenhuma mulher lhe agradava. Acaba por conhecer uma professora primária chamada Madalena e, como fazia com tudo o que desejava, a conquistou e convenceu-a a casar-se com ele.

Após casarem, Madalena mudou-se para a fazenda São Bernardo com sua tia Glória, e engravidou. No entanto, ao contrário de todos que Honório conhecera, ela não lhe era dominável. Ela o enfrentava, reclamava das condições dos empregados, e possuía um tino social que o incomodava profundamente.

As brigas tornaram-se cada vez mais intensas e regulares. Paulo Honório enlouquecia de ciúmes ao perceber que a mulher estava fora de seu controle, e tornava-se mais agressivo a cada nova discussão. Madalena perdeu a vontade de viver, perdeu o carinho pelo filho, e sentindo-se humilhada e arrasada, acabou se suicidando. Honório encontrou uma carta de despedida da esposa e, totalmente desolado, apenas assiste ao abandono que sofre de todos os empregados e pessoas que moravam na fazenda. Perdeu sua rede de contatos e teve os limites de São Bernardo oficialmente questionados, encontrando-se em completo desalento.