Romanceiro da Inconfidência

Romanceiro pode ser definido como um conjunto de romances. Numa visita a Ouro Preto, a consagrada escritora e poeta brasileira Cecília Meireles compôs a obra que intitulou “Romanceiro da Inconfidência”, publicada em 1953 e que aborda uma grande temática social, relatando a História de Minas desde o início da colonização no século XVII até a Inconfidência Mineira – revolta que ocorreu no fim do século XVIII na capitania de Minas Gerais – utilizando-se de elementos líricos, dramáticos e épicos, evocando a luta de brasileiros por liberdade. Por apresentar uma linguagem de fácil compreensão, clara e comunicativa, além de tratar de um tema muito familiar para os leitores da época, “Romanceiro da Inconfidência” se tornou a obra mais popular e conhecida de Cecília Meireles, sendo vista até hoje como uma das grandes poesias da Literatura Brasileira, tendo até mesmo seu conteúdo exigido em provas de concursos e vestibulares. Com 85 romances/poemas, além de alguns cenários e prólogos, a obra pode ser dividida em três ciclos ou partes: ciclo de ouro, no qual a liberdade brilhava cada vez mais em Minas Gerais e ganhava força, mostrando o desenrolar da febre do ouro na localidade, a busca desenfreada pela riqueza que o metal poderia trazer, e é finalizada com o nascimento de Tiradentes; ciclo de diamante, sendo apresentado positivamente assim como o ciclo de ouro; ciclo da liberdade ou inconfidência, no qual são notas as desgraças que a liberdade trouxe como mortes, masmorras e outros males, relatando a reação das autoridades locais para com os revoltados, e finalizando a obra com uma homenagem chamada “Fala aos inconfidentes mortos”.

Romanceiro da Inconfidência

Foto: Reprodução

Ciclo de Ouro

Acompanhe alguns poemas-lírico-narrativos do ciclo ouro, como a íntegra de Romance I, onde a autora deixa clara a necessidade da liberdade para que as próximas gerações não mais se afundassem no abismo da busca forçada por ouro e riquezas:

Romance I

“E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo:

Que a sede de ouro é sem cura,

e, por ela subjugados,

os homens matam-se e morrem,

ficam mortos, mas não fartos. (ib .ib)

Como o ouro que brota da terra, brotam também “as sinistras rivalidades”, ladrões e contrabandistas, – um clima de intranqüilidade:

todos pedem ouro e prata,

e estendem punhos severos,

mas vão sendo fabricadas

muitas algemas de ferro.”

Em Romance VII, Cecília continua sua prosa, argumentando a triste realidade dos escravizados, que perdiam até os prazeres mais simples da vida, e não se limitavam apenas aos negros, mas já havia chegado aos brancos.

Romance VII

“O ouro lhe tiraria o “t” da terra e o “s” da serra e ele erra cativo, sem liberdade, com os elos de ferro da escravidão…

Mas o ouro que brotava da terra não cativara apenas o preto, como Chico, que também já fora rei “lá na banda em que corre o Congo”: também os brancos foram atirados naquela lama que alimentava a ganância de reis e rainhas:

Hoje, os brancos também, meu povo,

são tristes cativos.”

Ciclo de Diamante

Romance XV

Esse romance relata a traição sofrida por João Fernandes por parte de um conde, no qual ele é levado preso assim como Chica da Silva havia pressentido:

“Maldito o conde, e maldito

esse ouro que faz escravos,

esse ouro que faz algemas,

que levanta densos muros

para as grades das cadeias,

que arma nas praças as forças,

lavra as injustas sentenças,

arrasta pelos caminhos

vítimas que se esquartejam!”

Romance XVIII

Chica da Silva tem seu fim como sempre desejara passar em vida: cravejada de brilhantes. João Fernandes também tem o fim de sua era relatado.

“Sobre o tempo vem mais tempo.

mandam sempre os que são grandes:

e é grandeza de ministros

roubar hoje como dantes

vão-se as minas nos navios…

Pela terra despojada,

ficam lágrimas e sangue.”

Ciclo da liberdade

Cecília finaliza sua obra com uma homenagem aos inconfidentes que batalharam pela causa e acabaram por perder sua vida. Chamou-a de “Fala aos Inconfidentes Mortos”, como segue seu trecho final:

“Treva da noite,

lanosa capa

nos ombros curvos

dos altos montes

aglomerados…

Agora, tudo

jaz em silêncio:

amor, inveja,

ódio, inocência,

no imenso tempo

se estão lavando…

 

Grosso cascalho

da humana vida…

Negros orgulhos,

ingênua audácia,

e fingimentos

e covardias

(e covardias!)

vão dando voltas

no imenso tempo,

– à água implacável

do tempo imenso,

rodando soltos,

com sua rude

miséria exposta…

 

Parada noite,

suspensa em bruma:

não, não se avistam

os fundos leitos…

Mas, no horizonte

do que é memória

da eternidade,

referve o embate

de antigas horas,

de antigos fatos,

de homens antigos.

 

E aqui ficamos

todos contritos,

a ouvir na névoa

o desconforme,

submerso curso

dessa torrente

do purgatório…

 

Quais os que tombam,

em crime exaustos,

quais os que sobem,

purificados?”