Boca de Ouro

“Boca de Ouro” é uma obra escrita pelo dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues, encenada pela primeira vez no ano de 1959. Considerada pela crítica uma tragédia carioca, “Boca de Ouro” é composta por três atos, os quais se desenrolam a partir da morte de um poderoso bicheiro carioca chamado popularmente como Boca de Ouro. A partir de reportagens policiais sobre o caso, três versões sobre o caso são dadas pela ex-amante do bicheiro, Dona Guigui. As versões dependiam não da realidade, mas do estado emocional da mulher e de quão pressionada se sentia pelas circunstâncias a revelar o que achasse conveniente, fosse verdade ou não.

Inspiração

Nelson Rodrigues andava quase sempre no mesmo ônibus quando ia almoçar na casa de sua mãe. Era impossível passar despercebido que o motorista do ônibus havia trocado todos os seus dentes por dentes do ouro, já que o mesmo fazia questão de comentar e os mostrar para todos, alegando ser ouro maciço 24 quilates. Ficava claro que os dentes de ouro – embora não esteticamente bonitos – eram a grande realização da vida daquele homem, e a partir daí Nelson Rodrigues decidira escrever uma peça na qual se utilizasse da impressionante história daquele motorista, combinando-a com a realidade suburbana do Rio de Janeiro. Não seria apenas uma história do subúrbio, mas também do submundo carioca, de um homem que se importaria com poucas coisas na vida que não fossem seus dentes de ouro.

Do lixo ao luxo

Arlindo Pimenta nasceu no Rio de Janeiro, em Madureira. Mais especificamente, em uma pia de gafieira, tomando o primeiro banho com água de bica. Cresceu totalmente envergonhado de sua concepção, de sua origem, e estava determinado a mudar de vida, não importa o que precisasse fazer para isso.

Assim, começou a crescer no submundo carioca como bicheiro, ganha muito dinheiro e fica cada vez mais famoso e popular entre as pessoas de convívio naquele antro de devassidão e criminalidade. O passado de Arlindo, no entanto, sempre o assombrava. Morria de medo de ter seu parto contado por alguém, e era capaz de matar quem quer que fosse para ocultar suas origens.

Decidira então, que não bastava ter mudado de vida e se tornado – ao seu ponto de vista – um bicheiro bem sucedido. Ele queria mudar sua identidade. O primeiro passo, ele pensou, era arrancar todos os seus saudáveis e perfeitos dentes brancos e puros, para implantar dentes de ouro maciço. Para ele, a atitude representava a vitória de alguém que vivia na miséria, que quase literalmente veio do lixo, e podia agora desfrutar de uma vida luxuosa. Já não se chamava mais Arlindo Pimenta. Agora era Boca de Ouro.

Boca de Ouro

Foto: Reprodução

As versões de uma mulher confusa

Dona Guigui era uma mulher casada, mas já há muito tempo amante de Boca de Ouro. Sabia da má índole do homem, mas não se importava. A obra é praticamente toda composta por suas lembranças, e como cada ato retrata uma diferente personalidade do bicheiro, muitas interpretações podem ser tiradas. Dona Guigui, no primeiro ato, não via Boca de Ouro já por algum tempo, não conseguia contatá-lo e sequer tinha notícias dele. A conclusão da mulher é de que havia sido abandonada pelo amante, o que muito a frustrou e revoltou. Assim, o primeiro ato retrata m Boca de Ouro totalmente fascínora e violento, capaz de matar quem ousasse lembrar-lhe de suas origens.

No entanto, no segundo ato Dona Guigui acaba sendo abordava em sua casa por repórteres que desejavam mais informações sobre a morte do bicheiro. Sim, ele estava morto, e ela não sabia disso até o momento. A dor da perda e a forte paixão que sentia por Boca de Ouro a fizeram revelar muitos segredos do bicheiro, omitindo diversas maldades, como o assassinado de Leleco.

O marido de Dona Guigui fica espantado e preocupado com a coragem e ousadia da mulher em revelar segredos de um poderoso criminoso carioca, e pede para que ela se cale, sob a ameaça de perdê-lo. Assim ocorre o terceiro ato, no qual a mulher muda de versão perante os repórteres, retratando o bicheiro como um “assassino de mulheres”.

Questão de interpretação

Afinal, quem de fato foi Boca de Ouro? Quais crimes ele realmente cometeu e quem o teria assassinado? Apesar das diversas versões de Dona Guigui, é possível encontrar semelhanças em todas elas, evitando a óbvia contradição em que estaria caindo. De acordo com seu estado emocional, surgiu um novo Boca de Ouro a cada versão, embora ele fosse o mesmo em todas elas.