Bagagem

O livro Bagagem foi feito pela autora mineira Adélia Prado como sua estreia no mundo da literatura. Composto por cinco partes, tem temáticas que se repetem, como a condição feminina que é reafirmado por vários pontos, assim como o amor que aparece de forma simples, em contraponto com a feminilidade que aparece como algo complexo. As partes que o compõe são: O modo poético; Um jeito de amor; A sarça ardente I; A sarça ardente II; e Alfândega.

O destaque da obra está, além do amor e da condição feminina, no relacionamento entre familiares, amor entre mãe e filho, pai e filha e entre cônjuges, tendo junto a esse sentimento, um sutil erotismo. As temáticas são desenvolvidas junto à questão da memória, fazendo lembranças de momentos que gerações anteriores viveram.

A metapoesia é um elemento muito presente na obra, assim como a religiosidade que também aparece como tema destaque, revelando relações com o sobrenatural de forma lírica e suave.

Adélia Prado

Adélia Prado trabalhou como professora por muito tempo, mais de 20 anos antes de começar a escrever.  Quando começou a sua dedicação à carreira literária, Adélia Prado se tornou um dos nomes mais importantes da poesia brasileira do século XX, tendo uma interessante obra marcada por temas do cotidiano e pela sinceridade.

Sua poesia nasce de um movimento que objetivava resgatar o lirismo da literatura brasileira e demonstra muito a presença da mulher em uma sociedade muito machista, sem espaço para elas. Transmite em sua obra a luta e o caráter feminista, reclamando por um lugar igualitário para a mulher na sociedade.

Bagagem

Foto: Reprodução

Características marcantes

O livro carrega uma intertextualidade muito marcante, além de diálogo com outros poetas como Guimarães Rosa, Castro Alves, Camões e Fernando Pessoa. A autora apresenta no livro um relacionamento com o principal interlocutor, Carlos Drummond de Andrade que, inclusive, é o alvo principal da dedicação do livro. A obra conta, inclusive, com uma poesia citada em tom paródico “o poema de sete faces” do poeta mineiro.

A autora não faz uso de linguagem rebuscada, tampouco de recursos formais sofisticados demais, como a métrica calculada ou as rimas ricas. Seu trabalho, no entanto, não deve ser interpretado como algo de baixa qualidade por causa disso. É, pelo contrário, muito belo justamente por essa simplicidade formal que entra em sintonia com a simplicidade temática que caracteriza a mulher em seus papéis primordiais como de filha, esposa e mãe.

Resumo

Considerado um dos principais livros de poesia da época publicados por mulheres, Bagagem foi, inclusive, elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Lançado em 1976, o livro tem como tema principal, exposto, inclusive no primeiro poema que o compõe, o objetivo da autora com a obra, que é apresentar os sentimentos dela em torno do mundo que a cerca, não deixando de lado as limitações impostas pela sociedade às mulheres.

Por exemplo, em seu poema “Com licença poética”, o eu-lírico afirma, deslocando o contexto para o feminino quando apresenta a capacidade da mulher de interpretar muitos papéis simultaneamente: “Vai ser coxo na vida, é maldição para homem/mulher é desdobrável. Eu sou”.

Em sua obra, carrega traços religiosos nas epígrafes de cada uma das partes do livro. Essas são compostas por trechos retirados da Bíblia, mas também carrega essa presença da religião em seus poemas que fazem menção a Deus.

Alguns poemas demonstram que o dom da poesia, para ela, é um dom divino, sendo uma sina que deve ser carregada com inspiração vinda de Deus. Ela ainda brinca em alguns poemas do livro, com a relação de impacto entre sagrado e profano, refletindo os dogmas que são pregados pelo misticismo católico.

Poesia “Com licença poética”

A poesia “Com licença poética” demonstra a liberdade que o autor tem para expressar, já que a licença poética nada mais é do que isso. A licença, também pode ser interpretada como como pedir licença para iniciar sua trajetória poética, independentemente de ser essa licença direcionada ao leitor ou aos mestres da literatura. É, portanto, a abertura do livro.

Esse poema é o que citamos anteriormente, que surge como um parafraseador do “Poema de sete faces”, mas com um eu-lírico feminino que se define como desdobrável e anunciado por um “anjo esbelto”, e sem a imagem pessimista do poema de Drummond.

A poesia da autora começa com:

“Quando nasci um anjo esbelto,
Desses que tocam trombeta, anunciou:
Vai carregar bandeira”

Enquanto Drummond começa de forma semelhante:

“Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra disse:
Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

Poema “Grande desejo”

O poema “Grande desejo” carrega uma aproximação do eu-lírico com a mulher comum, a mãe, pois se declara assim, mas também tem situações comuns a muitas mães com a exposição de seus sentimentos e sensações da dor, o choro e os gritos. Ainda assim, dentre tantos sofrimentos, apresenta-se como uma dama requintada.

Poema “Orfandade”

O poema evoca memórias da infância, pedindo para que Deus dê a oportunidade de retornar aos seus cinco anos novamente, com memórias de momentos, imagens, aromas e tudo que remetia à sua meninice. Acima de tudo, remete ao desejo de rever sua mãe resgatando-a da morte.