O Quinze

“O Quinze” é a primeira obra literária da escritora brasileira Rachel de Queiroz, publicado em 1930. Descendente de José de Alencar, nasceu em Fortaleza e passou por um período de grande seca em 1915, o que fez seus pais decidirem se mudarem para o Rio de Janeiro. A obra é justamente sobre a referida seca vivida pela romancista durante sua infância. O livro – dentre os escritos por ela, o mais popular – lhe rendeu diversos prêmios e grande reconhecimento do público e da crítica. Ganhou grande destaque entre os escritores de ficção social do Nordeste e foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

É possível encontrar na obra cenas características regionais, como os pedidos por chuva e outros episódios costumeiros da localidade. Ainda, Rachel com extrema sensibilidade e delicadeza demonstrou grande preocupação com o âmbito social de regiões que passam por situações tão extremas e traumáticas quanto um longo período de seca, e a conseqüente fome. A tão famosa obra foi escrita em dois planos, no qual um enfoca a relação afetiva de um criador de gado chamado Vicente com sua culta prima Conceição, e o outro enfoca o vaqueiro Chico Bento e sua família. Pela importância da escritora – também jornalista, cronista, dramaturga, romancista e tradutora – no cenário literário brasileiro e de sua obra, conhecer “O Quinze” é de suma importância para agregar conhecimento sobre nossa cultura, estar bem preparado para vestibulares e provas de concurso, já que muitas vezes o conteúdo da obra é utilizado para formular algumas questões, além de ser uma grande lição de vida e dar ao leitor uma visão de mundo realista, independente da classe social na qual este se enquadre.

O Quinze

Foto: Reprodução

Primeiro Plano – Núcleo de Conceição

Conceição é professora, apresentada no livro como uma moça culta, que se interessava por ler diversos livros, inclusive tendências socialistas e feministas – o que causava estranheza a Mão Nácia, sua avó e personagem responsável por representar tradições antigas. Com 22 anos, a moça dizia para todos que não pensava em casamento, alegremente falava em ‘ter nascido solteirona’ após algumas tentativas frustradas de namoricos aos dezoitos anos. Mulher de espírito forte e ao mesmo tempo sensível, humana e abnegada.

O único homem por quem Conceição nutria admiração e sentimentos especiais era seu primo Vicente. Proprietário da fazenda familiar e responsável por cuidar do gado, era um homem selvagem e até mesmo rude, mas sensível aos problemas da família. Filho de um rico fazendeiro, poderia ter estudado nos melhores colégios, mas desde que se entendera por gente, queria ser vaqueiro. A situação causava tristeza e decepção a sua família, mas depois de um tempo, notando o zelo descomunal com o qual tratava o gado, passaram a admirá-lo. Durante a terrível seca, Vicente trabalhava incansavelmente para manter o gado vivo.

Conceição interessava-se pelo primo, mas não deixava transparecer a ele seus sentimentos. Assim, Vicente envolvia-se com outras moças sem saber que a prima estava interessada por ele. Enquanto isso, a professora se revoltava e era consolada por sua avó, que dizia:

“Minha filha, a vida é assim mesmo… Desde hoje que o mundo é mundo… Eu até acho os homens de hoje melhores.”

Conceição passa a tratar Vicente com indiferença, e o rapaz não consegue entender os motivos e se ressente. O vaqueiro também nutria forte admiração pela prima, mas ao constatar seu distanciamento, passou a duvidar que um dia pudesse casar-se e ser feliz. Com o fim da seca, cada um retomou suas atividades.

Segundo Plano – Núcleo do Vaqueiro Chico Bento

Chico Bento é o retrato do homem de bom coração, mas de situação financeira miserável. Antes da seca, era vaqueiro de diversas fazendas, cuidando com afinco do gado alheio e possuindo diversos patrões. Porém, a severidade da seca ceifou a vida de muitos animais, e Chico foi dispensado aos poucos de cada um de seus empregos.

Com a dificuldade em viver no Ceará, Chico, juntamente com sua mulher e seus cinco filhos, decide partir para tentar uma vida melhor noutro lugar. Passaram fome severa durante a estrada, e num desses momentos o filho mais novo, Josias, comeu uma mandioca crua e se envenenou. Teve uma trágica e triste morte, agonizando até o fim e sendo enterrado pelo pai na estrada. Percebe-se a sensibilidade da autora e a dramaticidade na vida do personagem no trecho:

“Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai.
Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz.”

Ainda passando por grande fome, no caminho Chico encontra uma cabra e a mata para comer com sua família. Antes de pudesse começar a prepará-la, descobre que o animal tinha dono e é chamado de ladrão, o que o marca profundamente. O dono da cabra a leva para sua casa, e dá à família de Chico apenas as tripas para comerem.

Posteriormente, o retirante sente falta de Pedro, seu filho mais velho. Busca o delegado do local e descobre que o garoto havia fugido com comboeiros de cachaça, ouvindo juntamente o seguinte comentário:

“Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?”

Finalmente chegam a um campo de concentração para retirantes em Fortaleza, e são reconhecidos pela professora Conceição, que era comadre de Chico. Ela lhe arruma um emprego e adota um de seus filhos. Posteriormente conseguem passagem de trem e partem rumo a São Paulo.