Mapinguari

Mapinguari é um livro de crônicas, as quais foram escritas entre os anos de 1964 e 1976 pela escritora brasileira Raquel de Queiroz. A autora possuía uma característica peculiar de transformar em excelentes obras algo que tenha feito parte de sua experiência de vida, como o fez em “O Quinze” ao relatar a terrível seca que afligiu o Nordeste – e fez seus pais partirem com ela de lá. Morou com seus pais por algum tempo em Belém do Pará, onde provavelmente ouviu a terrível lenda do Mapinguari, um monstro assustador que encontrava saciedade ao comer a carne humana.

Mapinguari

Foto: Reprodução

Sobre a obra

Com 331 páginas, o livro Mapinguari pode ser considerado a junção de dois livros anteriores de Raquel de Queiroz, sendo eles “Brasileiro Perplexo” de 1963 e “As Menininhas” de 1976, ambos de histórias e crônicas, e em cada obra havia uma crônica que lhe desse nome.

Com Mapinguari não é diferente, pois se encontra no livro uma pequena crônica chamada Mapinguari, a qual fora escrita em 21 de junho de 1972. Uma grande qualidade da autora Raquel de Queiroz é saber tornar suas obras verdadeiros tesouros atemporais, que serão considerados atuais mesmo que já tenha se passado cem anos desde sua publicação.

Algumas crônicas encontradas na obra provarão exatamente o que está sendo aqui dito: uma vez lidas, a identificação é tamanha que ela não será mais esquecida, e parecerá ter sido escrita há poucos dias atrás, tamanha atualidade. Entre as crônicas principais, podemos encontrar:

  • A arte de ser avó;
  • Duas histórias para Flávio, ambas de onça;
  • Cidade do Rio ou O Ateu;
  • Velho: o você de amanhã.

Trecho da crônica Mapinguari

“Noite de lua, no terreiro, os homens procuram se esquecer do assunto eterno que é a falta de chuva e recordam histórias do Amazonas. Recordam é modo de dizer: desses todos que estão aí nenhum foi do tempo em que se ia para o Amazonas, e o que sabem ouviram de pais e avós. Contam os casos clássicos de boto e curupira, e hoje saiu em cena um bicho pouco falado, o mapinguari.
Bicho não, que o mapinguari tem a figura de um caboclo gigante, 3 metros de altura, pés espalhados e braços enormes. Anda nu, o corpo azeitão e pelado é liso, sem o menor arranhão de mato. Cabelo só tem na cabeça, curto e ruivo, deixando à vista as orelhas pontudas.
Mapinguari só come coisa viva. O gosto dele é morder na carne quente e sentir o sangue esguichar. Come guariba e outros macacos que apanha nas árvores, com muita fome, é capaz de se agachar à beira d’água tentando pegar algum peixe de couro; de escama não gosta. Mas a comida predileta do mapinguari é mesmo gente e, só quando lhe falta carne de homem, come a dos bichos. Quando caça, imita pio de pássaro e voz humana; mas só sabe dar uma fala fininha, esquisita, que mal engana a distância.”

Sobre a autora

Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, em 17 de novembro de 1910. Seus pais eram proprietários rurais que, diante da terrível seca que atingira o Nordeste, decidiram partir para o Rio de Janeiro com a filha em 1915. A estadia em solo carioca durou pouco, e foram então para Belém do Pará, onde ficaram por 02 anos. Depois, com a amenização da seca, retornaram para o Nordeste. A autora em questão iniciou sua carreira como jornalista, posteriormente tornando-se professora, cronista, romancista, tradutora, escritora e teatróloga. Com o passar do tempo, o sucesso e reconhecimento chegaram para Raquel, que passou a ter grande importância para o cenário literário nacional, haja vista ter sido a primeira mulher convidada a ingressar na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de n° 5.

No ano de 1993, Raquel de Queiroz fez história novamente, ao ser a primeira mulher a conquistar o Prêmio Camões. Ainda, foi convidada para ingressar na Academia Cearense de Letras, no dia em que a instituição comemorava seu centenário: 15 de agosto de 1994. No Rio de Janeiro, em 04 de novembro de 2003, Raquel de Queiroz faleceu, deixando inestimável legado literário, o qual até os dias de hoje é exigido em provas de concursos e vestibulares.