Lira dos Vinte Anos

“Lira dos Vinte Anos” é uma das mais emblemáticas e importantes obras do escritor brasileiro Álvares de Azevedo. Publicada postumamente no ano de 1853, é a única obra cuja publicação Álvares elaborou pessoalmente. Ao analisar a curta história de vida do autor – que faleceu aos vinte anos, vítima de tuberculose – é possível notar que ele era um típico poeta romântico do século XIX: vida tanto quanto desregrada e boêmia, entediado e ao mesmo tempo excessivamente romântico, levando para suas poesias características fundamentais do gênero, como o pessimismo, a morbidez e o sentimentalismo. “Lira dos Vinte Anos” é uma obra que traz em seu conteúdo conjuntos de poesias organizados em três partes, sendo a primeira e última parte chamada de Face Ariel, enquanto a segunda se chama Face Caliban. No entanto, o livro não deve, jamais, ser considerado apenas mais uma obra poética, pois a juventude do autor, seu incomum talento e aflorada sensibilidade lhe conferiram um tom especial e atraente, com uma pitada de humor que mostra ser permitido ao romântico possuir a capacidade de rir de si próprio. Antes de escritor, Álvares de Azevedo foi um grande leitor, deixando claras suas influências em poetas como o inglês Byron, seu modelo maior. Azevedo era alguém que, ciente da curta vida que teria – haja vista na época os poucos recursos disponíveis para o tratamento da tuberculose e outras doenças – era nitidamente inconformado, buscando os sonhos e a fantasia para ter leveza e evitar adaptar-se ao mundo real, almejando na morte próxima a paz que estava certo de encontrar.

Lira dos Vinte Anos

Foto: Reprodução

Face Ariel – Parte Um

Na primeira parte de “Lira dos Vinte Anos”, Álvares de Azevedo transmite uma grande idealização do amor e da mulher. Utiliza de grande sentimentalismo, mais do que em qualquer outra parte do livro, e surge como um poeta consumido por fantasias e sonhos, buscando viver o amor. É possível ainda encontrar nessa leitura diversas virgens sonhadoras, que criam um clima levemente sensual e de muita fantasia. Pode-se confirmar o que está sendo dito pela poesia “Sonhando”, conforme trecho abaixo:

“Na praia deserta que a lua branqueia,

Que mimo! que rosa! que filha de Deus!

Tão pálida… ao vê-la, meu ser devaneia.

Sufoco nos lábios os hálitos meus!

Não corras na areia,

Não corras assim!

Donzela, onde vais?

Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,

O orvalho da face te esfria o suor,

Teus seios palpitam — a brisa os roçou,

Beijou-os, suspira, desmaia de amor!

Teu pé tropeçou…

Não corras assim…

Donzela, onde vais?

Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.

Imóvel e branca na praia dormia;

Mas nem os seus olhos o sono fechou

E nem o seu colo de neve tremia…

O seio gelou?…

Não durmas assim!

Ó pálida fria,

Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar

Nos longos suspiros do meu coração:

Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,

Teu colo, essas faces, e a gélida mão…

Não durmas no mar!

Não durmas assim.

Estátua sem vida,

Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar

Brilhava tão branca no límpido véu…

Nem mais transparente luzia o luar

No ambiente sem nuvens da noite do céu!…”

No entanto, o prenuncio da morte também é explorado nessa primeira parte, transparecendo um poeta que se aproximava de seu fim, confessando-se errante, perdido e deslocado. Percebe-se pelo trecho de “Saudades” abaixo:

“Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,

Tantas noites de febre e d’esperança…

Mas hoje o coração parado e frio,

Do meu peito no túmulo descansa.

Pálida sombra dos amores santos!

Passa quando eu morrer no meu jazigo,

Ajoelha ao luar e entoa um canto…

Que lá na morte eu sonharei contigo.”

Parte Dois – Face Caliban

Encontra-se em Caliban uma poesia mais pessimista, sombria, com muitos cadáveres, vultos de mulheres e grande boêmia. Azevedo se deixa consumir pela ironia, pelo realismo, pelo sarcasmo, utilizando-se do humor estudantil. Para melhor compreensão, segue na íntegra “Idéias Íntimas”:

“Oh! ter vinte anos sem gozar de leve

A ventura de uma alma de donzela!

E sem na vida ter sentido nunca

Na suave atração de um róseo corpo

Meus olhos turvas se fechar de gozo!

Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas

Passam tantas visões sobre meu peito!

Palor de febre meu semblante cobre,

Bate meu coração com tanto fogo!

Um doce nome os lábios meus suspiram,

Um nome de mulher . . e vejo lânguida

No véu suave de amorosas sombras

Seminua, abatida, a mão no seio,

Perfumada visão romper a nuvem,

Sentar?se junto a mim, nas minhas pálpebras

O alento fresco e leve como a vida

Passar delicioso. . . Que delírios!

Acordo palpitante . . inda a procuro;

Embalde a chamo, embalde as minhas lágrimas

Banham meus olhos, e suspiro e gemo. . .

Imploro uma ilusão. . . tudo é silêncio!

Só o leito deserto, a sala muda!

Amorosa visão, mulher dos sonhos,

Eu sou tão infeliz, eu sofro tanto!

Nunca virás iluminar meu peito

Com um raio de luz desses teus olhos?”

Parte Três – Face Ariel

A terceira e última parte de “Lira dos Vinte Anos” pode ser considerada uma mistura das duas partes anteriores, mas assemelhando-se muito mais à primeira. Encontra-se exacerbadamente o lado romancista do escritor, com tanto sentimentalismo quanto a primeira, mas com maior incidência de conotações eróticas e sensuais, tratando em alguns poemas como o desejo sendo reprimido, e em outras com o desejo sendo sublimado, como mostra abaixo a íntegra de “Seio de Virgem”:

“O que eu sonho noite e dia,

O que me dá poesia

E me torna a vida bela,

O que num brando roçar

Faz meu peito se agitar,

E o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara o cetim

Desses limões de marfim,

Os leves cerúleos veios

Na brancura deslumbrante

E o tremido de teus seios?

Quando os vejo, de paixão

Sinto pruridos na mão

De os apalpar e conter…

Sorriste do meu desejo?

Loucura! bastava um beijo

Para neles se morrer!”