Idéias de Jeca Tatu

Jeca Tatu é um dos mais conhecidos personagens de Monteiro Lobato. Criado em 1914, o personagem contém 14 histórias baseadas nele, reunidas no livro Idéias de Jeca Tatu. Monteiro Lobato tornou-se grandemente conhecido como escritor e contista por criar diversas obras e personagens de cunho infantil, cativando crianças e adultos. Assim como “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, Jeca Tatu ganhou muitas versões e adaptações, tornando-se atemporal e sendo passado de geração a geração. Na época em que foi lançado, o público não acolheu de maneira efusiva o trabalho de Lobato, pois estava acostumado com personagens caboclos vistos de forma romântica e otimista, enquanto o autor utilizava Jeca Tatu como simbolismo do caboclo atrasado, abandonado por seus governantes à própria sorte, à indigência e às doenças, sendo constantemente renegado. No entanto, apesar da crítica social e até mesmo política, as estórias de Jeca Tatu transmitiam leveza e bom humor, cativando ao pouco a crítica e o público em geral.

Idéias de Jeca Tatu

Foto: Reprodução

Quem era Jeca Tatu?

Jeca Tatu vivia no interior de São Paulo – mais precisamente no Vale do Paraíba – com a mulher e vários filhos. Era um homem muito pobre, moravam numa casinha de sapé, suas crianças eram tristes e pálidas, e sua esposa era muito feia e magra. A miséria da família era alarmante e deixava a todos boquiabertos. Não boquiabertos pela pobreza em si, mas pela atitude de Jeca para com a vida. O homem passava o dia de cócoras, desanimado e indisposto para realizar qualquer tarefa que fosse.

Perto de sua casa havia um ribeirão, no qual por vez ou outra ele ia pescar uns lambaris. Também poderia ir ao mato tirar palmitos, caçar, mas nada que lhe deixasse muito cansado: apenas o básico para sobreviver com sua família.

Preguiça sem fim

“Que grandíssimo preguiçoso!” murmuravam os vizinhos. O casebre de Jeca não possuía móveis, a família mal tinha roupas para se cobrir, e não encontrariam por lá nada que pudesse lembrar conforto ou comodidade. Algumas peneiras furadas, um banquinho com apenas três pernas, uma espingardinha ordinária e já teriam encontrado muito!

De tão preguiçoso e fraco, quando precisava buscar lenha, Jeca voltava com um feixinho tão fino e pequeno que até parecia ser uma piada. Para piorar a situação, o carregava arqueado, com dificuldade, como se fosse um peso enorme. Quando lhe perguntavam o motivo de não trazer uma lenha ou um feixe maior, o caboclo respondia que “não pagava a pena”. Para Jeca, nada pagava a pena, nada era importante. A única coisa que lhe era útil e “pagava a pena” era beber, sendo visto por todos como, além de preguiçoso, um bêbado.

Jeca possuía alguns poucos animais: um cãozinho, um porco e algumas galinhas. O cachorro era um companheiro fiel do caboclo, mas sofria de bernes que lhe causavam muito sofrimento, a qual Jeca jamais se preocupara em tirar-lhes dele. As pessoas torciam o nariz e o achavam insensível, mas ele simplesmente não se importava. Assim como seu porco, que nunca engordava porque não era alimentado, e as galinhas que, pelo mesmo motivo jamais punham ovos. Para Jeca, se os animais quisessem comer, que buscassem seus próprios interesses sozinhos.

O homem não via futuro na vida, não tinha empenhos, objetivos, sonhos ou qualquer situação que lhe entusiasmasse com a vida. As coisas passaram a mudar quando, num dia muito chuvoso, um doutor pediu para aguardar em sua casa até que a chuva terminasse. Ao notar a miséria da casa e a situação de Jeca – chucro e amarelado – pediu para examiná-lo. Constatou que Jeca não era apenas um homem preguiçoso, ele era doente.

Mudando de vida

As dores de cabeça, assim como a canseira infinita que o caboclo sentia eram, segundo o doutor, causadas por anquilostomiase. Tratava-se de uma doença provocada por vermes que penetravam na pele dos pés descalços de Jeca e alojavam-se em seu intestino. O doutor lhe orientou a comprar botas resistentes e tomar algumas medicações.

Mesmo descrente, Jeca seguiu as orientações do médico e os resultados foram surpreendentes. O homem simplesmente não conseguia mais parar de trabalhar. Possuía disposição para dar e vender, cortando e carregando lenha em quantidades cada vez maiores, cuidando de sua esposa, de seus filhos, de sua casa e de seus animais. A aparência de todos na casa melhorou, as galinhas agora botavam muitos ovos e os porcos haviam se multiplicado.

Preocupado com os vermes que lhe acometeram durante tanto tempo, ele mandou fazer botas rígidas para todos, inclusive para os porcos e galinhas. A população ficava impressionada de ver como o caboclo havia mudado, e como era agora um homem trabalhador e esforçado. Comprou caminhões, enriqueceu e faleceu de consciência tranqüila após muitos anos de sua cura, com 89 anos de idade. Ele não teve estátuas ou reconhecimentos à nível nacional, mas tornou-se uma grande inspiração.