Iaiá Garcia

Na época em que “Iaiá Garcia” foi escrito, Machado de Assis ainda não se encontrava no realismo como escola literária, mas sim no fim de sua fase romântica. No entanto, sempre atento às situações da sociedade ao seu redor, o autor compôs sua obra de jogos de interesses, amores proibidos e casamentos arranjados, acontecimentos muito comuns para a época. Escrito em 1878, a estória se dá entre 1865 e 1871, tendo como marco temporal o desenrolar da Guerra do Paraguai. Como obra romântica, há o sentimentalismo, e embora os personagens sejam tipicamente românticos, não o são em sua totalidade – fato que indica o fim desta fase para Machado de Assis –, inexistem vilões e os personagens secundários são extremamente realistas. A obra retrata a diferença social entre as classes, a moral e o orgulho de determinados personagens.

Iaiá Garcia

Foto: Reprodução

Amores proibidos e casamentos convenientes

Lina Garcia, no início da estória com onze anos de idade, é filha de Luís Garcia, homem honesto, íntegro, que tinha na filha toda a razão de viver e de ter, com ela, seus raros momentos de alegria. Sua frieza e aparente impassividade revelavam um coração triste, desenganado e destruído. As precoces experiências que teve na vida produziram em Luís um quase permanente estado de ceticismo e apatia.

Sua filha Lina, chamada por Iaiá, estudava num colégio interno e só estava em casa aos finais de semana. Nos dias em que Iaiá estava em casa, Luís podia experimentar a alegria e afeição que eram inexistentes durante a semana em que a jovem estava estudando. Neste período inicial da obra, Luís já estava com quarenta e um anos.

O pai de Iaiá era amigo da viúva Valéria, senhora de idade avançada, com alguns fios brancos em seus cabelos, olhos negros comumente tristes por tudo o que já sofreram na vida, como a perda de seu companheiro. Mulher forte e robusta, Valéria pede ao amigo que a ajude a convencer o filho Jorge de que deve partir para a Guerra do Paraguai, sendo este seu dever como cidadão. No entanto, as intenções de viúva eram mais profundas: ela descobrira o filho, rapaz rico e de família com importância social, apaixonado por uma pobre jovem de 16 anos, filha de um dos ex empregados de seu falecido marido.

A jovem em questão era Estela. Apesar da pouca idade, possuía forte senso moral como poucas, além de exalar meiguice e delicadeza. Seus grandes olhos escuros contrastavam com a palidez de sua pele, chamando ainda mais a atenção de uma moça portadora de rara beleza natural, sem precisar de quaisquer artifícios para embelezar-se. Estela estava hospedada na casa de Valéria, e despertou o sentimento de seu filho Jorge. Sem sombra de dúvidas, ela o correspondia, o amava, mas seu orgulho não lhe permitiria casar-se com um homem de classe social tão elevada à dela, como se o mesmo lhe prestasse algum tipo de favor. Durante um passeio com Estela, Jorge se declara a ela e furta-lhe um beijo, que ofende a moça e a faz sentir-se inferiorizada, decidindo voltar para a casa de seu pai e anular o sentimento que nutria por Jorge.

O filho de Valéria decide, então, fazer a vontade de sua mãe e ir para a Guerra do Paraguai. Lá se passam anos, mas o rapaz não esquece sua paixão e mantém-se fiel ao que sente. Em carta ao amigo Luís Garcia, pai de Iaiá, Jorge lhe revela o real motivo de sua mãe tê-lo incentivado a ir para a Guerra, mas não diz a identidade da mulher por quem havia se apaixonado.

Estela não sofria pelo sentimento que nutria por Jorge. Pelo contrário, a moça não apenas deixou de alimentar a paixão como procurava agir de modo que mostrasse já tê-lo esquecido, mantendo-se firme, orgulhosa e até mesmo fria. Valéria então convida a jovem para voltar à sua casa, tendo-a como sua protegida e vivendo em perfeita harmonia. A viúva frisa para Estela da importância de casar-se com um bom homem, e ela garante avisar sua querida senhora quando encontrar alguém.

Neste período, Iaiá e Estela tornaram-se grandes companheiras, e a filha de Luís achou por bem incentivar sua amiga e o pai a casarem-se. Estela viu em Luís um homem digno, honesto e dedicado à sua filha, enquanto o pai de Iaiá notou na moça como ela se dava bem com sua filha, acreditando que poderia ser para ela uma excelente madrasta. Não havia amor entre eles, e Luís acreditava que jamais seria capaz de despertar na jovem paixão ou sentimentos desta natureza. No entanto, estimavam-se e nutriam respeito um pelo outro. Assim, deu-se o casamento entre eles.

O retorno de Jorge

A Guerra do Paraguai findara e Jorge retorna para casa. Valéria, sua mãe, já havia falecido, e o rapaz descobre que o grande amor de sua juventude havia se casado com seu melhor amigo. Como Luiz não sabia que o amor de Jorge havia sido Estela, o rapaz achou por bem manter a amizade, fazendo necessárias as visitas. Iaiá logo notou o interesse de Jorge por sua madrasta, e passou a desprezá-lo. No entanto, por medo de que ele reconquistasse o amor da juventude e seu pai, já de idade e com diversos problemas cardíacos, fosse abandonado pela esposa e ficasse em sofrimento, decidiu que se casaria com Jorge.

Ambos de fato se apaixonaram, e Estela com sua moral irrefutável, dizia ter grande gosto pelo relacionamento, incentivando-os a casarem-se o quanto antes, para que Luís Garcia pudesse ter o gosto de dar a benção à filha, já que se encontrava a beira da morte. Infelizmente o pai de Iaiá faleceu antes que ela se casasse com Jorge, e abalada ela por diversas vezes adiou o casamento.

Em dada ocasião Jorge lhe envia uma carta questionando sobre a nova data em que se casariam, e Iaiá lhe responde com uma carta de rompimento. A afilhada de Estela negava-se a casar com o homem que a madrasta amava. Irritada, Estela convenceu-lhe de que não havia amor entre ela e Jorge, e disse ao rapaz que a carta de rompimento havia sido apenas um capricho equivocado. Eles marcam uma nova data e realmente casam-se, sendo Estela a madrinha do casamento. Então, a ex madrasta de Iaiá parte para São Paulo e troca cartas com a mesma, que passou a ser esposa de Jorge.