A Hora da Estrela

“A Hora da Estrela”, obra da consagrada Clarisse Lispector, foi seu último livro. Embora não tenha feito parte da época de ouro da literatura brasileira, juntamente com Machado de Assis, Lispector ganhou espaço com sua maturidade – mesmo quando ainda era bem jovem – e psicologismo. O romance “Perto do Coração Selvagem”, lançado em 1944, foi responsável pela explosão de seu sucesso, deixando todos perplexos em perceber como ela era uma escritora especial. Com o passar de anos e obras, Clarisse era vista como uma romancista excelente, mas escritora alienada das realidades do país – principalmente a política – já que evitava abordá-las em seus livros. “A Hora da Estrela” serviu para encerrar esse paradigma, pois traz uma forte carga política ao abordar o contato do imigrante nordestino com uma cidade grande, como o Rio de Janeiro. Na obra ela mostra que não é nem um pouco alienada, mas não abandona seu típico psicologismo. Clarisse cria um narrador fictício – Rodrigo S.M. – responsável por relatar a vida de uma jovem vinda do Nordeste, refletindo ricamente sobre seus conflitos internos, manias e sonhos.

A Hora da Estrela

Foto: Reprodução

Triste Infância

Macabéa nasceu em Alagoas e perdeu os pais enquanto era ainda uma pequena criança, tendo pouca ou nenhuma lembrança deles. Acabou sendo criada por uma tia extremamente religiosa e supersticiosa, cheia de tabus e moralismos, os quais acabaram sendo transmitidos para Macabéa.

A pobre garota sofreu uma infância realmente miserável, privada de qualquer conforto, de relacionar-se com amigos e animais de estimação – já que não pôde ter nenhum dos dois –, e sem ter o essencial para a sobrevivência de qualquer ser humano: amor. A tia de Macabéa possuía ainda o mórbido prazer de castiga-la, deixando-a sem a tão desejada goiabada com queijo de sobremesa, além de enchê-la de cascudos na cabeça, raramente precisando de motivos para isso.

Cidade nova, vida nova?

Quando já estava um pouco crescida, Macabéa e a tia acabaram se mudando para o Rio de Janeiro. Numa cidade nova, a jovem sonhava com uma mudança de vida, na qual se tornaria uma estrela de cinema tão famosa quanto Marilyn Monroe, a quem idolatrava. No entanto, sua miserável vida não guinou tanto quanto ela gostaria.

Embora mal soubesse escrever e possuísse muito pouco estudo, a jovem fez um curso de datilografia e conseguiu conquistar um emprego, no qual receberia menos de um salário mínimo. Nesse meio tempo a tia acaba falecendo, e Macabéa deixa de frequentar a igreja.

Passou a viver repartindo um quarto de pensão com quatro moças, balconistas de uma loja. A miséria não havia abandonado a moça, que cheirava mal pelas raras oportunidades que tinha de tomar banho, passava fome – a qual procurava disfarçar comendo pequenos pedaços de papel –, sofria de fortes e persistentes tosses e mal conseguia dormir pela azia que sofria como consequência do café frio que tomava antes de deitar-se.

Os poucos luxos que a moça sustentava era pintar as unhas de vermelho – para roê-las em seguida –, ir ao cinema quando recebia seu salário e comer diariamente Coca-Cola e cachorro quente. Ela desconhecia o que era uma real alimentação quente, a qual toda a população deveria ter direito a usufruir. Era preocupantemente pálida e magra.

Certa vez, Raimundo, chefe de Macabéa, decidiu demiti-la, pois já não aguentava mais lidar com o péssimo trabalho executado por ela – vide textos com marcas de gordura e crassos erros ortográficos. Surpreso com a reação da moça, que apenas se desculpa pelos aborrecimentos causados, Raimundo decide permitir que ela continuasse trabalhando.

Deslumbrando-se com pouco

Num dia do mês de maio, a moça liga para o trabalho dizendo que precisaria arrancar o dente e por isso não poderia comparecer. Aproveita a falta para fazer coisas novas, como ficar sozinha em casa dançando ao som de música alta e até mesmo poder sentir-se entediada. Nesse dia acaba conhecendo Olímpico de Jesus, o homem que seria seu único namorado.

Olímpico não era o tipo de homem que pais sonham para sua filha, mas Macabéa não tinha quem olhasse por ela. Seu namorado vira do Nordeste fugido, pois lá matara um homem. No Rio de Janeiro consegue emprego numa metalúrgica, fato que traz para Macabéa delírios de grandeza, já que para ela, ele era metalúrgico e ela datilógrafa.

Homem de mau caráter e extrema ambição, Olímpico de Jesus sempre fazia com Macabéa programas gratuitos, como sentarem-se na praça para conversar, e comumente irritava-se com as perguntas da moça, que logo se desculpava por medo de perdê-lo. Quando o rapaz finalmente decidiu lhe pagar um café, deslumbrada com a situação, ela encheu o copo de açúcar para aproveitar o momento, passando mal em seguida.

O trágico fim

Olímpico conhece Glória, colega de trabalho de Macabéa, e decide terminar com ela para investir na outra. Glória vivia numa casa confortável, alimentava-se corretamente, tinha um pai açougueiro, e acabou despertando a ambição do rapaz, onde começam a namorar em seguida. Enquanto isso, Macabéa vai ao médico e descobre ter tuberculose, mas sua miséria e ingenuidade não lhe permitem mensurar a gravidade de sua doença, deixando de tomar remédios já que ‘sentia-se bem apenas por ter ido ao médico’.

Sentindo remorso por ter roubado o namorado da pobre colega, Glória a convida para um lanche em sua casa e a incentiva para ir a uma cartomante saber de seu futuro.  Macabéa segue o conselho e vai até a casa de Madama Carlota, que lhe prevê o casamento com um estrangeiro financeiramente estável, que lhe daria tudo o que precisasse e o amor que nunca tivera.

Encantada com as previsões, Macabéa atravessa a rua sem atentar-se para o trânsito e acaba sendo atropelada por um Mercedes-Benz amarelo. Inúmeras pessoas aglomeram-se ao redor dela, mas não ousam se mover para socorrê-la. Caída na calçada, a moça tosse sangue e perde a vida. Como finaliza a obra, ‘a hora da estrela havia chegado’.