Histórias Sem Data

Publicado no ano de 1884, “Histórias Sem Data” de Machado de Assis é um dos mais conhecidos e aclamados livro de contos de todos os tempos. É sabido por todos que Machado deixou uma contribuição inenarrável para a literatura nacional, com obras ricas em detalhes, capazes de prenderem a atenção do leitor a cada página virada sem tornarem-se cansativas ou enfadonhas. No caso da obra em questão, é ainda mais fácil manter-se entretido, já que o livro é composto por 18 contos diversos e com personagens diferentes. Machado alerta no prefácio do livro que dos contos presentes, apenas dois efetivamente não levam datas, o que pode parece o título ser ininteligível ou vago para alguns. No entanto, para ele a importância era de que sua extemporaneidade ficasse evidente, sua independência de tempo, achando totalmente desinteressante e desnecessário que os leitores fiquem presos a datas ou as descrições feitas dos personagens. “Histórias Sem Data” foi publicado três anos após o sucesso “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e contém os ingredientes essenciais que fazem de Machado um contista modelar.

Histórias Sem Data

Foto: Reprodução

Os contos da obra

Confira abaixo resumos de alguns dos contos que constituem a obra “Histórias Sem Data”:

A Igreja do Diabo.

Conto que abre o livro, conta a estória de quando o Diabo decidiu fundar uma igreja para que pudesse competir com as demais religiões existentes. Assim como Deus fez, ele pretende organizar e reunir seu ‘rebanho’, deixando Deus ciente de suas intenções e indo à Terra para fundar a Igreja que tem por finalidade idolatrar os defeitos e falhas humanas. No princípio, seu plano foi um verdadeiro sucesso, com diversos adeptos. No entanto, com o passar do tempo os homens passam a, secretamente, exercerem virtudes e praticarem boas ações. Enfurecido, o Diabo conversa com Deus sobre sua decepção, e Deus lhe apronta que a situação de meio termo entre bem e mal fará parte da eterna contradição arraigada no ser humano.

Conto Alexandrino.

Tendo como protagonistas os cientistas Stroibus e Pitias, o conto relata suas aventuras e desventuras ao partirem para Alexandria em nome da ciência. Como na época a profissão se encontrava satirizada, buscavam na nova localidade reconhecimento e valorização. Deram início numa pesquisa científica com a finalidade de buscar a origem da desonestidade. Stroibus acabou por dizimar lentamente milhares de ratos em nome da ciência. Buscava de todos os meios comprovar a teoria de que o homem poderia adquirir a característica moral de um animal se bebesse de seu sangue.

Singular Ocorrência.

É relatada nesse conto a traição de uma ex-prostituta que estava casada com o homem que a havia tirado da vida de prostituição. Não é possível identificar o narrador certeiro, deixando para o leitor identificar-se como narrador. Conta-se que o casal era apaixonado e, numa única vez, sem explicação plausível, a esposa o traiu, gerando intrigas e discussões que quase minaram o relacionamento e a fizera cometer suicídio. Por sorte, acabaram se reconciliando e vivendo em paz, até que o rapaz muda temporariamente de província e acaba por morrer antes de retornar para a amada.

Galeria Póstuma.

 Relata-se a estória de um rapaz que acaba por encontrar o diário de um tio que já havia falecido. No diário ele descobre as opiniões e sentimentos que o tio nutria por aqueles que o cercavam, inclusive pelo próprio sobrinho. O conto é uma forte crítica a hipocrisia, já que o tio demonstrava por muitos um sentimento determinado quando na realidade nutria outro.

Anedota Pecuniária.

Uma forte crítica à ganância, às pessoas que buscam dinheiro e luxos antes de qualquer outra coisa, colocando riquezas materiais acima de tudo. No referido conto um homem é capaz de vender suas sobrinhas para “homens que as amam” em troca de dinheiro e bens materiais. O trecho alude à pedofilia e prostituição forçada de meninas que deveriam ainda estar brincando como o que de fato eram apenas meninas e não descobrindo por dinheiro o que era ser ‘amadas por homens’.

Último Capítulo.

Trata-se da carta deixada por um suicida. O individuo durante toda a vida considerou-se alguém sem sorte, verdadeiramente azarado (capaz de quebrar o nariz ao cair de costas) e que se cansou de uma vida tumultuada por desgraças e sofrimento. Enquanto inventariava bens deixados pela esposa falecida, encontrou cartas de amor que ela trocava com seu sócio. Achou que a melhor solução seria matar-se e deixar registrado em testamento uma cláusula exigindo que com seu dinheiro fossem comprados sapatos e distribuídos entre pessoas humildes, já que certa vez vira um homem que era um verdadeiro pobre coitado (em pior situação que ele) feliz em contemplar seus sapatos.