Espumas Flutuantes

“Espumas Flutuantes” foi a primeira obra do poeta brasileiro Castro Alves, publicada no ano de 1870. Embora tenha falecido prematuramente e possua o referido livro como a única obra lançada em vida – faleceu no ano seguinte ao lançamento, em 1871 –, Alves é tido como o maior poeta social no meio do romantismo nacional. “Espumas Flutuantes” é um conjunto de 54 poemas capazes de sintetizar todas as características do autor, deixando transparecer grande sentimentalismo e iminência diante da morte, tendo sido uma antologia aclamada e acolhida pela crítica, que com grande respeito e admiração consagrou o então estudante do 4° ano de Direito como um dos maiores poetas do cenário literário brasileiro. Por escrever diversos poemas sob a temática da abolição da escravatura, ficou conhecido como “o poeta dos escravos”, denunciando vez após vez a vida triste e degradante a qual os negros eram submetidos.

Espumas Flutuantes

Foto: Reprodução

Dedicatória

O livro se inicia com o poema “Dedicatória”, que de fato parece funcionar como um prefácio de toda a obra. Traz em si o desejo de comunicação que o autor possuía, além de outros elementos que lhe eram comuns. Mostra que a própria obra é o tema central, como se fosse lançado de encontro ao público para ser acolhido.

“Assim, meu pobre livro as asas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno…
O mar atira-lhe a saliva amarga,
O céu lhe atira o temporal de inverno…
O triste verga à tão pesada carga!
Quem abre ao triste um coração paterno?…
É tão bom ter por árvore — uns carinhos!
É tão bom de uns afetos — fazer ninhos!”

Hebréia

Quando tinha 19 anos de idade, em Salvador, Castro Alves foi acometido por um amor platônico. Tratava-se de uma bela moça que morava em frente à sua casa, da qual ele apenas sabia que era filha de Isaac Amzalak, tradicional integrante de uma família de origem judaica. Alguns anos depois, o poeta faleceu vítima de tuberculose pulmonar, e acredita-se que não pôde consumar sua paixão, mas deixou para ela um dos mais tocantes poemas românticos da Literatura nacional, conforme os trechos abaixo mostram:

“Tu és, ó filha de Israel formosa…
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia…
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!
Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?”

Quem dá aos pobres, empresta a Deus

Sim, a famosa frase repetida até hoje para incentivar que se estenda a mão ao próximo, foi utilizada primariamente por Castro Alves. Como já dito, numa vida curta (faleceu aos 24 anos) o poeta desde muito cedo se interessou pela temática da escravatura e buscou dar voz aos escravos, que sofriam abusos, humilhações, além de perder o bem mais precioso que o ser humano pode ter: a liberdade. Utiliza-se do poema também para novamente tratar sobre a obra, citando-a como um “livro laureado em luzes”.

“Eu, Que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis — aos miseráveis grandes—,
Eu, que sou cego, — mas só peço luzes…
Que sou pequeno, — mas só fito os Andes…
Duas grandezas neste instante cruzam -se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!…
Uma — é um livro laureado em luzes…
Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear coto sabre…
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão…
Do vasto pampa no funéreo chão”

Mocidade e Morte – ou O Tísico

Embora a tuberculose o tenha ceifado a vida de fato aos 24 anos, desde cedo Castro Alves foi atingido por ela. Numa época onde não havia tecnologia e medicação suficientemente avançados para o tratamento desta e outras doenças, o poeta convivia com o horizonte da morte, mostrando-se por diversas vezes amargurado e preocupado com a expectativa que desde tão cedo lhe havia sido dada. “Mocidade ou Morte” traz em si a morte como uma presença constante, mas não deixa de ser um hino de amor à vida, à felicidade e aos prazeres de alguém que possuía então apenas 17 anos.

“Oh! eu quero viver; beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh ‘alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n ‘amplidão dos mares.
No seio de mulher há tanto aroma…
Nos seus beijos de fogo há tanta vida…
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
Morrer… quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
E eu sei que vou morrer.. dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu ‘inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!
Vivo – que vaga sobre o chão de morte,
Morto – entre os vivos a vagar na terra.”