Claro Enigma

“Claro Enigma” é uma obra literária do histórico escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade. O livro não relata um conto ou história, mas sim um conjunto de 41 poemas que formam essa coletânea. Esses poemas são divididos em seis seções: I “Entre Lobo e Cão” (18 poemas); II “Notícias Amorosas” (07 poemas); III “O Menino e os Homens” (04 poemas); IV “Selo de Minas” (04 Poemas); V “Os Lábios Cerrados” (06 poemas); VI “A Máquina do Mundo” (02 poemas). Publicado em 1951, após Drummond sofrer uma grande fase de decepção com o socialismo e seus rumos após a Segunda Guerra Mundial, a obra retrata a introspecção acentuada e transcendente a qual o escritor foi conduzido após abandonar a militância. Se em outras obras Drummond era capaz de evidenciar sua postura forte e contrária a qualquer situação que o incomodasse, em “Claro Enigma” ele apenas se mostra inconformado e perplexo, porém sem forças para reagir. Sua poesia deixa de focar a busca de respostas e passa a centralizar-se em perguntas que devem ser feitas, abandona a até então comunhão para dar lugar à melancolia, tematizando as incertezas e angústias que atormentavam o escritor quanto ao rumo que seria seguido após perder suas certezas políticas.

Claro Enigma

Foto: Reprodução

Entre Lobo e Cão

Sendo a seção mais extensa da obra, Entre Lobo e Cão tem por intenção expor a oscilação, o extremismo: de um lado o cão, amigo do homem, animal domesticado e fiel; do outro o lobo, animal totalmente avesso ao convívio social, altamente desconfiado e predador por natureza. Como se Drummond tivesse a necessidade de escolher entre a companhia e a solidão, a alegria e a melancolia. Os poemas dessa seção trazem grande tom de negativismo, decepção e luto.

Notícias Amorosas

Seção dedicada ao tema romântico, mas focado no amor desencontrado, amor de sofrimento e contemplação, de admiração e dificuldade, o amor que se encontra próximo e distante, facilmente tocável e dificilmente conquistável. É retratado nos poemas como uma condição humana, da qual não se pode fugir, mesmo que aparentemente não seja atraente ou sedutor.

O Menino e os Homens

Dando continuidade ao tom negativo e pessimista, Drummond permeia essa seção com poemas memorialísticos, relembrando irmãos, amigos e entes falecidos. Foca-se o antagonismo da presente no destino do ser humano. A mor e a vida como duas iminentes e antagônicas faces da vida. A morte é retratada como um destino certeiro, ao qual todos estamos condenados desde o nascimento. Nas entrelinhas fica o questionamento do autor: como aproveitar a vida lidando com a proximidade de seu fim?

Selo de Minas

Seção confessamente autobiográfica. Divide-se entre a família Drummond e o Estado de Minas. Traça o percurso dos caminhos mineiros, em especial a Minas existente no período colonial. Lamenta a destruição que as calamidades naturais e o tempo exercem sobre as casas e patrimônios de Ouro Preto, utilizando o desmoronamento das casas como uma alusão à sua própria história.

Lábios Cerrados

O ato de cerrar os lábios é utilizado como sinônimo de mudez, silêncio. Por ser uma seção que retrata a memória da família de Carlos Drummond de Andrade, é visto como um silêncio da memória, em especial nas lembranças de seu pai. Seguindo o negativismo e pessimismo quase enlutado da obra, é feita uma profunda reflexão sobre a aceitação da morte e sua ligação com o tempo, o prometido remédio para todas as dores emocionais e psicológicas. Discorre sobre as pessoas que partiram, mas que sobrevivem eternamente em lembranças. O presente que insiste em estar preso ao passado. A ausência e presença dos conhecidos que já faleceram.

A Máquina do Mundo

Como última seção do livro, discorre sobre o homem e sua estadia no mundo. Todas as interrogações feitas na obra estão presentes nessa seção, onde as soluções são oferecidas e prontamente recusadas, pois para o poeta, ‘são os questionamentos que movem a vida’. Nessa parte do livro encontra-se um poema com o mesmo nome da seção, o qual foi eleito o maior e melhor poema do século XX. Desde a Antiguidade até a Renascença esteve presente a ideia de que o mundo era, de fato, uma máquina. No poema, essa máquina se abre para o autor e lhe oferece uma “total explicação da vida”. Se por muito tempo ele havia buscado respostas para suas indagações sobre a vida, a morte e o mundo, agora desdenhava enigmaticamente do que poderia descobrir. Para Drummond, as respostas não eram mais desejadas, e sequer eram acreditadas como uma possibilidade. Essa explicação era vista por ele como um novo mergulho em uma ilusão, utilizando de sua ironia e liberdade para se justificar e seguir lidando com as indagações que o atormentavam.