Clara dos Anjos

“Clara dos Anjos” é um romance póstumo do escritor Lima Barreto. Atuante na classe do pré-modernismo brasileiro, assim como do realismo-naturalismo, o livro foi concluído em 1922 – ano em que o autor faleceu – e publicado apenas em 1948. Tendo como cenário o subúrbio carioca, a obra é uma feroz e áspera crítica contra o preconceito social e racial – o qual era grandioso naquela época, e exista até os dias atuais, embora mais discretamente. Com uma narrativa até mesmo exagerada, Lima Barreto conta em “Clara dos Anjos” a estória da moça negra e pobre, discriminada como tantas outras iguais a ela Brasil a fora. O ambiente e a vida das pessoas são retratados com riqueza de detalhes para aproximar o leitor da realidade de cada personagem, seus pensamentos, suas inquietações, suas vitórias e frustrações. O realismo-naturalismo que influenciava o autor pode transmitir ainda a impressão de que as ações dos personagens são produtos de suas características hereditárias, do meio e do momento histórico em que vivem, mas deve-se frisar que cabe sempre ao leitor aprofundar-se no livro e tentar compreender o que o escritor quis transmitir. Sem dúvidas, é uma excelente e muito recomendada leitura para quem deseja agregar conhecimento sobre as grandes obras literárias nacionais, assim como preparar-se para vestibulares e provas de concursos, já que em muitos locais sua leitura é exigida.

Clara dos Anjos

Foto: Reprodução

A jovem que se deixou iludir

Clara dos Anjos é protagonista e narradora da estória. Trata-se de uma jovem ingênua, frágil e mulata. Seu pai, Joaquim dos Anjos, é um carteiro honesto, de bom coração, mas pobre. Nada disso seria problema ou empecilho para a felicidade da família, se Clara não se envolvesse com o mau caráter Cassi Jones. Cassi é um rapaz branco, malfeitor e ignorante, que usa o sobrenome por supostamente ter descendido de um nobre inglês. Para se ter ideia da condição do rapaz, seu próprio pai havia cortado relações com ele por causa das muitas aventuras que acabaram com vários casamentos e desonraram diversas donzelas – em um dos casos, a mãe de uma das moças se suicidou, e seu marido passou a distribuir anonimamente dossiês sobre Cassi pelo Rio de Janeiro.

Quando havia cansado de se divertir com as mesmas moças de sempre, o próximo alvo de Cassi foi Clara. Decidido à aproximar-se da moça, ele foi em sua festa de aniversário para marcar presença e tentar qualquer proximidade. Como sua índole já era conhecida, os pais da moça, seu padrinho e tantos outros amigos a avisaram para tomar cuidado e evitar qualquer tipo de proximidade com Cassi. Clara, no entanto, ingênua como era, não pôde conter a curiosidade acerca do rapaz, imaginando que ele não devia ser tão ruim como diziam.

Aproximação perigosa

O dentista de Clara, um velho que pouco se importava com o bem estar da moça, passou a ser usado por Cassi para efetivamente se aproximar dela. Através dele o rapaz enviava para Clara cartas, que ela respondia e pedia ao dentista que lhe entregasse. Assim se correspondiam regularmente, até que passaram a se encontrar. Clara se envolveu completamente por Cassi, apaixonando-se e confiando em tudo o que ele lhe dizia. A moça não podia evitar o pensamento de que todas aquelas pessoas que falaram mal dele, na verdade, deveriam querer privá-la da felicidade de viver aquele amor. De extrema inocência, ela se entrega para o rapaz, absolutamente iludida por tudo que ele lhe queria fazer acreditar.

Fatídico abandono

Certo dia, surpreendendo Clara, Cassi parte para São Paulo, dizendo ser para uma oportunidade de emprego. Ela havia engravidado, e ele sabia disso. A atitude de Cassi foi simples: desaparecer. A moça mal podia acreditar no que estava vivendo, grávida, enganada, abandonada. Depois de muito sofrimento, pensou na possibilidade de abortar, evitando a vergonha que causaria a sua família. Porém, logo mudou de ideia e revelou tudo o que havia acontecido para sua mãe.

A mãe de Clara imediatamente vai para a casa do rapaz, pedir para conversar com sua mãe e exigir os direitos da filha: que o rapaz se casasse com ela e assumisse a criança que Clara carregava. No entanto, é recebida pela mãe de Cassi com ofensa de que “mais uma mulatinha” tenha caído na lábia de seu filho e se ache digna de casar com ele. A jovem cai em si e nota que todos haviam lhe alertado veridicamente sobre a personalidade do rapaz, e que agora ninguém poderia intervir para mudar sua situação, sua sina. Contra o tempo, Clara busca alternativas para sobreviver e dar um futuro digno para o bebê que carrega em seu ventre, principalmente ensinando-lhe sobre caráter e bondade.