A Cidade e as Serras

Publicada em 1901, a obra “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós é conhecida por ser o último livro escrito pelo autor, tendo sido lançada um ano após seu falecimento. Faltara, no entanto, a meticulosa revisão que Queirós dedicava aos seus livros antes de publicá-los, mas acabou por falecer antes de finalizá-la. Ainda assim, a obra é considerada uma das mais importantes e melhores do autor, onde para muitos representa a reconciliação dele com Portugal, seu país ao qual dirigiu dura crítica em obras anteriores e na referida última obra transcreve elogios e palavras dignas de maturidade.

Contexto

A história se passa no século XIX e é narrada pelo também personagem José Fernandes, amigo do protagonista Jacinto. Nessa época, Paris era considerada não apenas a capital da Europa, mas também do mundo, sendo o foco principal de atenção de todos os países. Portugal era considerado ainda um país decadente, agrário, onde não se poderia viver com o devido conforto. E é exatamente esse o tema abordado por Eça: quando o muito se torna pouco, quando o conforto se torna incômodo, quando a tecnologia se torna extravagância e tudo o que se precisa é de um pouco mais de simplicidade.

A necessidade de civilização

Jacinto era um homem que vivia em meio ao conforto e tecnologia de sua época, numa mansão que seu avô e pai lhe haviam deixado como herança, localizada nos Campos Elíseos, nº. 202. Para ele, ‘o homem só seria superiormente feliz ao ser superiormente civilizado’, o que significava aclamar e viver bem a correria da cidade grande, ter em seu lar tudo o que era necessário, abominando assim qualquer hipótese de vida no campo.

Seus grandes amigos de toda vida eram o negro Grilo e José Fernandes. O último, num dado momento, decidiu-se por partir para a casa que os tios possuíam em Guiães, nas serras. Como era de se esperar, Jacinto lamentou a decisão do amigo – que ia de encontro sobre tudo o que ele acreditava e esperava de uma pessoa “superior” e “civilizada” – e, durante os sete anos em que José esteve fora, não se falaram. Quando voltou para Paris, retornou a amizade com Jacinto e voltou a viver com ele na mansão. Ao chegar lá, não encontrou o amigo que conhecia outrora, aquele com ar de superioridade, realizado com as coisas que possuía e com a cidade que vivia. Pelo contrário, encontrou um amigo consumido pelo tédio da mansão e abatido pelo exagero de “civilização” no qual se encontrava. A mansão possuía relógios com os horários de todas as capitais do planeta, a órbita atual, milhares de volumes de livros – muitos que não chegaram a ser lidos -, elevadores por todos os lados, e até mesmo abotoadores de ceroulas, tudo que lhe poupasse o trabalho. Jacinto já não conseguia ser feliz naquele ambiente tão moderno e que nada requeria de seu estado mental e físico. O homem havia se cansado, os bailes e eventos da alta elite já não o satisfaziam, não o faziam sentir-se humanamente útil, e assim ele foi definhando discretamente.

A busca pelo simples

A Cidade e as Serras

Foto: Reprodução

Num certo dia, Jacinto recebeu uma carta vinda de Portugal, avisando que o local onde seus avós e o restante da família estavam enterrados havia desmoronado. Imediatamente providenciou que fosse construído um novo local para abrigá-los e partiu para Tormes, com a finalidade de acompanhar a construção feita seus antecessores, além de realizar uma cerimônia que os homenageasse. Acostumado com a mordomia de sua mansão, enviou para lá vários artefatos pessoais e domésticos, para que pudesse ser recebido da forma que ele considerava ser “civilizada”. Não lhe foi pequena a surpresa, ao chegar juntamente com os amigos Grilo e José Fernandes para descobrir que as malas haviam sido extraviadas e nem mesmo sua chegada era esperada.

Jacinto calmamente iniciou uma reforma no local, para torná-lo de confortável, mas sem exageros, evitando comparações com seu estilo de vida anterior, e aos poucos foi se acostumando com a nova vida e local. Chegara a data de cerimônia para homenagear seus antepassados e descobriu-se que tudo não passou de um grande engano: na realidade, nenhum deles era parente de Jacinto.

Assim, ele aproveitou seus recursos para realizar melhorias não apenas em seu novo lar, mas também na cidade de Tormes, construindo creches, farmácias, bibliotecas e outras benfeitorias. As caridades de Jacinto não paravam: aumentou os salários de seus trabalhadores e para eles construiu casas, ganhando popularidade no local. Joana, prima de José Fernandes, foi apresentada a Jacinto e, após cinco meses casaram-se. Da união deles nasceram dois filhos. O homem que anteriormente era viciado em modernidade conseguiu levar para seu novo lar certa modernidade, mas nada que beirasse o irreal ou exagerado. José acabou por juntar-se ao amigo e viver junto com sua família, ao notar que era mais simples ser feliz quando se tinha o essencial e não o excedente.