Casa de Pensão

Casa de Pensão é uma obra literária do consagrado escritor brasileiro Aluísio Azevedo. Publicado em 1884, o livro teve por base um fato real: o caso que ganhou o nome de Questão Capistrano, crime envolvendo dois estudantes, ocorrido em 1876/1877 de grande repercussão no Rio de Janeiro. Longe do romantismo empregado em “O Mulato”, Azevedo segue fielmente a tendência naturalista que o realismo difundiu, abordando temas polêmicos como as injustiças sociais, a miséria e os preconceitos entre raças e classes. O escritor ainda estuda como a sociedade exerce influência sobre o indivíduo, trazendo à tona uma realidade que a literatura nacional havia até então ignorado. Por fim, Aluísio Azevedo descreve como vivia a maioria dos jovens estudantes universitários vindos do interior para as capitais estudar, e precisavam abrigar-se nas chamadas “pensões familiares”, que não eram tão familiares como diziam ser. Trata-se de uma trama envolvente, cativante e extremamente importante para compreendermos a situação social e histórica do Brasil.

Casa de Pensão

Foto: Reprodução

Infância sofrida e a busca por uma nova vida

O personagem principal da obra de Aluísio Azevedo é Amâncio, um jovem maranhense de 20 anos que parte para o Rio de Janeiro com o intuito de estudar Medicina. Amâncio não teve uma infância fácil, e ela foi determinante para sua trajetória como adulto: apanhava muito do pai enquanto criança, era constantemente repreendido e exalava onde fosse sua situação pela aparência frágil, quase que quebrável. Para a surpresa de todos, certa vez na escola, Amâncio reagiu e bateu num menino. Acabou apanhando de seu professor, revidando-lhe a bofetada em seguida. Ao chegar em casa, apanha ainda mais de seu pai, e torna-se um indivíduo extremamente medroso e receoso,mesmo com todos os cuidados e carinhos que Dona Ângela, sua mãe, tentava lhe conferir.

Pois bem, chega ao Rio de Janeiro já um jovem homem, e resolve procurar um amigo de seu pai – Sr. Luís Campos – para se abrigar. O Sr. Campos leva Amâncio para sua casa, e o permite que more lá juntamente com ele e sua esposa, Dona Maria Hortênsia – que a princípio não fora favorável a chegada do rapaz à sua casa, mas por fim aceitou a decisão do marido.

O início do fim

Amâncio era grato por ter sido acolhido pelo Sr. Campos, já que isso lhe proporcionaria uma grande economia, mas não estava plenamente satisfeito. Na flor da idade, o rapaz queria viver sua juventude, viver a noite, conhecer mulheres e a vida que tanto imaginara que teria na capital. Acaba encontrando um colega do Maranhão, Paiva Rocha, e o convida para almoçar. Passa a levar uma vida boêmia e desregrada, conhecendo diversos amigos de Paiva e recebendo convites para festas e bebedeiras.

O jovem Amâncio percebe que não pode levar a vida que deseja na casa dos Campos. Lá as regras devem ser cumpridas, e um rapaz que chegava tarde da noite quase todos os dias, faltava às aulas e bebia constantemente não era bem vindo. Para piorar a situação, Amâncio despertou o interesse de Dona Hortência, e também se interessou por ela, o que fazia ainda mais necessário sua partida.

João Coqueiro, amigo de Paiva e agora conhecido de Amâncio, o convida para morar em sua pensão. Com gente amontoada por todos os cantos, a pensão era um antro de promiscuidade. As notas de Amâncio na faculdade de Medicina vão de mal a pior, e João Coqueiro, interessado no dinheiro do rapaz, passa a tentar casá-lo com Amélia, sua irmã. Enquanto isso extorque o maranhense de todas as formas, tirando-lhe todo o dinheiro que conseguisse.

Caindo numa enrascada

Dona Ângela, mãe de Amâncio entra em contato com ele para avisar que seu pai havia falecido. Pede que o filho volte para visitá-la e cuidar dos negócios que o pai deixou. O rapaz combina de visitar-lhe assim que acabarem seus exames da faculdade, mas é impedido por Amélia, que diz deixá-lo ir apenas após o casamento. Sem intenção em casar-se de imediato com a moça, Amâncio planeja uma viagem às escondidas, mas é surpreendido pela polícia no dia do embarque e acaba preso. A alegação era de que o rapaz havia seduzido Amélia, tudo armado por João Coqueiro, que arruma falsas testemunhas para prejudicá-lo.

O ápice da tragédia

Após três meses do início do processo Amâncio é absolvido e liberado. O caso havia se tornado conhecido em todo o Rio de Janeiro, e o rapaz passou a ter quase um status de celebridade, conhecido, aclamado e parabenizado por todos que o encontrassem. João Coqueiro, porém, observava toda a situação completamente consumido pelo ódio, já que tornara-se um vilão conhecido na cidade, recebendo cartas ofensivas e sendo tachado pela esposa como um fracassado.

Certo dia, cansado do inferno que estava vivendo dentro e fora de si, João Coqueiro pega a arma que tinha numa de suas gavetas e a carrega. Pensa em matar-se, mas parte para o hotel onde Amâncio estava hospedado. Entra no quarto onde o jovem dormia de barriga para cima após uma noite de festança e bebedeira, e atira-lhe no peito à queima roupa. Amâncio abre os olhos, passa a mão no peito, sussurra “mamãe”, e por fim morre. Coqueiro é preso, enquanto a mãe de Amâncio chega ao Rio de Janeiro enlutada pelo seu marido, buscando o filho, e descobre a tragédia pelas manchetes dos jornais que tomaram o mundo. “Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro, no Hotel Paris…”.