Campo Geral

Campo Geral é uma obra lírica do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, publicada inicialmente em 1956. A estória se passa em Mutum, cidade interiorana de Minas Gerais, e relata a vida mediante os olhos inocentes e puros de uma criança, no caso, o pequeno Miguilim. É comum encontrar a infância retratada nas obras de Guimarães, sempre ligando-a à poesia, magia e sensibilidade de seres tão frágeis e sábios como os pequeninos. No entanto, Miguilim é uma criança especial, não por sofrer qualquer tipo de situação, mas por levar uma vida cercada de tragédias pessoais e situações as quais como criança ele não seria capaz de compreender plenamente. Muito bem recebida por crítica e público, a obra Campo Geral pode ser considerada uma das mais comoventes e sensíveis obras de Guimarães Rosa. Conheça melhor a vida de Miguilim.

Campo Geral

Foto: Reprodução

Infância difícil

A obra tem início quando Tio Terêz (tio por parte de pai) leva Miguilim para ser crismado, enquanto este tinha 8 anos de idade. A criança jamais havia saído do Mutum, local onde vivia, com exceção de algumas pequenas mudanças que fez quando era muito mais novo e das quais não tinha lembrança. É dada ênfase ao comentário que o menino escuta de um desconhecido, dizendo que o Mutum era um local muito bonito. Miguilim fica extremamente feliz e impressionado com o comentário, pois é de conhecimento da criança que sua mãe detesta o Mutum e é infeliz por viver lá. Ao voltar para casa, Miguilim corre para contar o ocorrido para Nhanina – sua mãe – e de tão afobado passa direto por seu pai, que desgosta da situação e o castiga. Esse ponto da obra é capaz de revelar boa parte de seu conteúdo: o menino tinha grande apego com a mãe – apesar de ter muitos irmãos, era ele quem mais se assemelhava com ela – e possuía uma relação difícil com seu pai, homem que amava o filho mas não sabia como demonstrar seus sentimentos, e com rudeza por vezes o maltratava.

Tio Terêz morava junto com a família de Miguilim, e é retratado como um grande amigo do menino. Grande foi a confusão quando descobriu-se que Nhanina estava tendo um caso com o cunhado. Nhô Bero, pai de Miguilim, parte para cima da esposa e é impedido de agredi-la pelo filho, a quem castiga. Vó Izidra, tia-avó do menino, que também morava na casa e era extremamente rígida e religiosa, expulsa Tio Terêz de casa. Na mesma noite houve uma grande tempestade, a qual fez Miguilim refletir com seu irmão mais novo, Dito, sobre o medo da morte. O protagonista passou a ter certeza de que morreria em dez dias, e sua saúde foi se fragilizando durante esse período, até que os dez dias passaram e Miguilim se alegrou por ainda estar vivo.

Amadurecimento

Nhô Bero toma uma decisão: Miguilim passaria a ser responsável por levar-lhe o almoço na roça todos os dias. A ocupação deixou o menino feliz, que agora se sentia útil diante da responsabilidade. No primeiro dia em que cumpriria a tarefa, passou por uma situação que poria em prova seu amadurecimento. Tio Terêz o interceptou no camiNhô e lhe pediu que entregasse uma carta para Nhanina. O menino gostava muito do tio e queria agradá-lo, mas embora não soubesse o que estava acontecendo, sentia que entregar a carta era algo errado. Assim, em meio as lágrimas negou o pedido do Tio, que prontamente entendeu a difícil situação em que colocara a criança.

Certa manhã, Miguilim foi com o irmão Dito espiar um niNhô de corujas. Dito era mais jovem que Miguilim, mas era também mais sábio e prático do que o irmão, que era um grande sonhador. Enquanto espiavam, uma coruja disse o nome de dito, e Miguilim jurou ser mau agouro. Estavam indo embora, quando Dito pisa em um caco de vidro e corta seu pé. O ferimento piora dia a dia, até que o garoto fica de cama. Os papéis se invertem, pois Dito era quem sempre passava a realidade para o irmão, o aconselhando, e agora era Miguilim quem contava para Dito o que acontecia ao seu redor. Dito foi diagnosticado com Tétano e acabou por falecer, o que fora um dos mais duros golpes que Miguilim poderia viver.

Para evitar que o filho pensasse no ocorrido, Nhô Bero resolve levá-lo para trabalhar arduamente na roça, embaixo do sol escaldante. O garoto não reclamava, mas era incapaz de encontrar consolo ou alegria em algo. Para piorar a situação, chega seu irmão mais velho, Liovaldo, rapaz de caráter quase maléfico. Certo dia, Miguilim flagra o irmão Liovaldo judiando do pobre menino Grivo, e parte para a briga com o próprio irmão. Indignado com a atitude de Miguilim, Nhô Bero o bate tanto que espanca o filho. Com ódio do pai, o menino é incapaz de chorar, rindo durante a sova. O ódio cresce a cada dia, e o menino imagina até como seria matar o pai quando crescesse. A relação entre pai e filho piora progressivamente, até que Miguilim adoece e desespera Nhô Bero, que teme perder mais um filho. Ele tenta fazer todas as vontades do filho, quando descobre que seu ajudante, Luisaltino, o estava traindo com Nhanina. Furioso, o homem mata o ajudante e se suicida.

Vida nova

Miguilim, muito abatido, recebe indiferente a notícia de que sua mãe se casará no Tio Terêz. Dois homens chegam a cavalo e um deles – Doutor José Lourenço – repara no olhar apertado de Miguilim. Descobre então que o garoto era míope ao lhe emprestar seus óculos. O Doutor se ofereceu para levar o menino para a cidade e colocá-lo para estudar, e Miguilim prontamente aceita. Pede, no entanto, que lhe empreste novamente os óculos para olhar Mutum, e convence-se de que o local é realmente bonito.