Baú de Espantos

Baú de Espantos é uma importante obra literária do escritor brasileiro Mario Quintana, publicada em 1986, ano no qual o poeta completou 80 anos. Trata-se de um livro com 99 poemas, até então inéditos, alguns inclusive escritos durante sua juventude, como “Maria”, redigido quando Quintana tinha 27 anos, em 1923. Para o escritor, o título da obra não poderia ser outro, já que ele mesmo encontrava-se espantado com seu conteúdo, haja vista a quantidade de coisas líricas, especiais e, segundo o crítico Affonso Romano, “terríveis”. Modernista, a obra contém poesia com coloquialismo, agradável bom humor e brevidade, características importantes das vanguardas modernistas. A maioria dos poemas da obra são breves, assim como alguns de seus sonetos. Por sua grande importância literária, a análise de seu conteúdo é comumente exigida em vestibulares e provas de concursos, sendo de extrema necessidade. Seguem abaixo alguns poemas escolhidos para conhecer melhor a obra através deste resumo, porém ressaltamos que nada substitui a riqueza literária agregada pela leitura da obra original e completa.

Baú de Espantos

Foto: Reprodução

“Tempestade Noturna”

“Noite alta,

na soçobrante Nau exposta aos quatro ventos,

em pleno céu sulcado de relâmpagos,

os marinheiros mortos trovejam palavrões.

Ó velhos marinheiros meus avós…

Para eles ainda não terminou a espantosa Era dos

Descobrimentos!

Santa Bárbara

e São Jerônimo,

transidos de divino amor,

escutam suas pragas como orações.

Quando eu acordar amanhã, livre e liberto como uma asa

vou rezar a São Jerônimo

vou rezar a Santa Bárbara

por este nosso fim de século pobre Nau perdida no

nevoeiro

que em vão busca o rumo.”

“Poema Transitório”

“Eu que nasci na Era da Fumaça: —- trenzinho

vagaroso com vagarosas

paradas

em cada estaçãozinha pobre

para comprar

pastéis

pés-de-moleque

sonhos

—- principalmente sonhos!

porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:

elas suspirando maravilhosas viagens

e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando

sempre… Nisto,

o apito da locomotiva

e o trem se afastando

e o trem arquejando

é preciso partir

é preciso chegar

é preciso partir é preciso chegar…

Ah, como esta vida é

urgente!

… no entanto

eu gostava era mesmo de partir…

e —- até hoje —- quando acaso embarco

para alguma parte

acomodo-me no meu lugar

fecho os olhos e sonho:

viajar, viajar

mas para parte nenhuma…

viajar indefinidamente…

como uma nave espacial perdida entre as estrelas.”

“Os Arroios”

“Os arroios so rios guris…

Vo pulando e cantando dentre as pedras.

Fazem borbulhas d’gua no caminho: bonito!

Do vau aos burricos,

s belas morenas,

curiosos das pernas das belas morenas.

E s vezes vo to devagar

que conhecem o cheiro e a cor das flores

que se debruam sobre eles nos matos que atravessam

e onde parece quererem sestear.

s vezes uma asa branca roa-os, sbita emoo

como a nossa se recebssemos o miraculoso encontro

de um Anjo…

Mas nem ns nem os rios sabemos nada disso.

Os rios tresandam leo e alcatro

e refletem, em vez de estrelas,

os letreiros das firmas que transportam utilidades.

Que pena me do os arroios,

os inocentes arroios…”

“Sei que Choveu à Noite”

“Sei que choveu à noite.

Em cada poça há um brilho azul e nítido.

Sobre as telhas, os diabinhos invisíveis do vento escorregam num louco tobogã.

Um mesmo frêmito agita as roupas nos varais e os brincos nas orelhas…

Ó ânsia aventureira!

Parece que surgem bandeirolas nos dedos mágicos dos inspetores do tráfego…

Ah, que vontade de desobedecer os sinais!

E mesmo as escolas, onde agora está presa a meninada, nunca essas escolas rimaram tão bem com opressivas gaiolas…

Só deveria haver escolas para meninos-poetas, onde cada um estudasse com todo o gosto e vontade o que traz na cabeça e não o que já está escrito nos manuais.

E, se duvidares muito, daqui a pouco sairão voando todas as gravatas-borboletas, enquanto os seus donos atônitos aguardam o sinal verde nas esquinas.

Decerto elas foram em busca de novos ares…

Mas sossega, coração inquieto.

Não vês? Sob o azul cada vez mais azul, a cidade lentamente está zarpando para um porto fantástico do Oriente.”

“Os Degraus”

“No desas os degraus do sonho

Para no despertar os monstros.

No subas aos stos – onde

Os deuses, por trs das suas mscaras,

Ocultam o prprio enigma.

No desas, no subas, fica.

O mistrio est na tua vida!

E um sonho louco este nosso mundo…”

“Viver”

“Quem nunca quis morrer

No sabe o que viver

No sabe que viver abrir uma janelas

E pssaros pssaros sairo por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translcidas

Radiadas

Estrelas-do-mar… Ah,

Viver sair de repente

Do fundo do mar

E voar…

e voar…

cada vez para mais alto

Como depois de se morrer!”