Auto da Compadecida

Quer você aprecie o cinema nacional, quer não, certamente já ouviu falar – ou até mesmo deu boas risadas – com o filme “Auto da Compadecida”. Um dos maiores sucessos do cinema nacional, capaz de agradar desde as mais inocentes crianças até as pessoas mais idosas que já imaginaram ter visto todo tipo de humor e acabam surpreendidos. O que nem todos sabem é que o filme foi baseado na peça “Auto da Compadecida”, do escritor brasileiro e paraibano Ariano Suassuna.

Auto da Compadecida

Foto: Reprodução

Grande defensor da cultura nordestina, Ariano retrata com grande humor e leveza o drama vivido por seus conterrâneos, obrigados a lutar constantemente contra a miséria, sentindo-se sempre acuados pela tormenta da seca e da fome. O autor retrata praticamente todos os perfis que podem ser encontrados na região nordestina do Brasil (embora alguns deles possam ser reconhecidos em todas as regiões do território nacional), como o avarento padeiro e sua esposa, que não se importam com a fome e necessidade de seus empregados mesmo quando lhes sobram recursos; o povo acuado que busca sobreviver no sertão através de sua inteligência e, até mesmo, malandragem, representados pelo personagem João; as autoridades religiosas que utilizam de sua posição para saciarem a ganancia, retratados pelo bispo e pelo padre; e os malfeitores que são vistos no fim como vítimas da vida dura que tiveram, sendo obrigados pela seca e fome a se tornarem o que vieram a ser, retratados por Severino e seu cangaceiro. Por trabalhar uma tendência mundial de maneira regional, a obra pode ser considerada como tendência modernista. A peça foi escrita em 1955, encenada pela primeira vez no ano de 1956, e adaptada para cinema e televisão respectivamente em 1999 e 2000.

Confusões e ambição

Por ter sido escrita inicialmente como peça de teatro, a história é narrada por um palhaço, e se inicia quando João Grilo e Chicó – melhores amigos e ambos empregados do padeiro – vão até a igreja pedir ao padre que benza a cachorra que sua patroa tinha, e que estava muito doente. Diante da negativa do padre, João lhe disse que a cachorra pertencia a Antônio Morais, poderoso local, e assim o padre a benzeu.

Ao saírem da igreja com a cachorra, Chicó e João avistaram Morais e lhe disseram que o padre estava louco, chamando a todos de cachorros. Antônio entrou na igreja e solicitou ao padre que benzesse sua filha, dando início à confusão no momento em que o padre começa a se referir a cachorros.

Poucas horas depois, falece a cachorra pertencente à mulher do padeiro, e ele juntamente com sua esposa e os dois empregados voltam para a igreja e solicita que o padre faça o enterro dela em latim. Após um sonoro “não”, João garante que a cachorra era cristã e deixaria quatro contos para a paróquia e seis para a arquidiocese, convencendo-os imediatamente.

Tragédia dentro da igreja

Inicia-se uma grande discussão dentro da igreja, pois todos queriam tirar alguma vantagem do dinheiro que deveria ser pago pelo enterro da cachorra, quando então entram Severino e seu capanga. Severino teve seus pais mortos pela polícia quando era criança, encontrando no cangaço um meio de sobreviver, e era idolatrado por seu capanga, que faria de tudo para agradá-lo. Imediatamente, Severino toma todo o dinheiro destinado ao enterro da cachorra e mata o padre, o bispo, o sacristão, o padeiro e sua esposa.

No momento em que mataria João, ele decide lhe oferecer em troca de sua libertação uma gaita que, ao ser tocada, ressuscitava pessoas. Para comprovar a eficácia do aparelho, João esfaqueia Chicó propositalmente numa bexiga de bode cheia de sangue que havia escondido debaixo da blusa do amigo. Após fazer-se de morto, Chicó faz-se de ressuscitado quando João toca a gaita.

Para ter certeza de que não estaria sendo enganado, Severino solicita ao seu capanga que atire nele, para que encontre seu padrinho Padre Cícero, e depois o ressuscite com a gaita. Como era de se esperar, a gaita não ressuscitou Severino, e iniciou-se uma briga entre o capanga, Chicó e João Grilo. João conseguiu esfaquear o capanga, mas quando se aproximou do corpo de Severino para tomar o dinheiro que ele havia roubado, é acertado por um tiro de rifle do capanga, em seu último suspiro.

Redenção e julgamento

Todos se encontram no céu para o juízo final, onde Jesus e o Diabo apresentam suas defesas e acusações. Sentindo-se prejudicado, João chama Nossa Senhora para interceder por eles, e ela assim o faz. Severino e seu capanga são absolvidos e enviados para o paraíso, vistos como vítimas do sistema opressor. O bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua esposa são mandados para o purgatório, e João simplesmente retorna ao seu corpo.

Ao retornar, pode ver Chicó lhe enterrando em lágrimas, levanta-se e assusta o amigo. Após muitas tentativas, João consegue convencê-lo de que não era uma assombração, estava de fato vivo, e fazem planos para o dinheiro do enterro da cachorra, até Chicó lembrar-se de que teria prometido dar todo o dinheiro para Nossa Senhora caso o amigo sobrevivesse. Após muito discutirem, decidem entregar o dinheiro à igreja.