Auto da Barca do Inferno

Quem está ou já passou pelo Ensino Médio certamente ouviu falar ou teve exigida a leitura de “Auto da Barca do Inferno”. Obra de Gil Vicente encenada pela primeira vez em 1517, tratava-se primariamente de uma peça teatral (a qual pode ser identificada por auto, uma designação genérica) da Idade Média, onde permeia o humanismo. De início, possuía caráter religioso, representando o juízo final mediante o ponto de vista católico através de satírica e com forte apelo moral – tanto que especialistas em literatura a classificam por moralidade, embora por muito se aproxime da farsa. “Auto da Barca do Inferno” (ou para alguns “Auto da Moralidade”) é a primeira parte de uma trilogia de Barcas de Gil Vicente, sendo as demais “Auto da Barca do Purgatório” e “Auto da Barca da Glória”.

Auto da Barca do Inferno

Foto: Reprodução

Após o sucesso inicial, foi adaptada e ao poucos teve reduzido o cunho religioso, abordando temas pertinentes à sociedade de Lisboa das primeiras décadas do século XVI, tornando-se popular para distração e divertimento. Sua importância foi tamanha que se tornou livro e atualmente praticamente todos os colégios e provas de vestibular exigem a leitura obrigatória da obra. O cenário é uma espécie de rio ou porto, onde duas barcas ficam paradas aguardando seus passageiros: uma vai para o paraíso e é comandada por um anjo, enquanto outra segue para o inferno, comandada pelo diabo.

Para o vestibulando ou estudante, é essencial ler a obra – e seu resumo, que não a substitui, mas permite ater-se melhor aos detalhes e refrescar a memória em vésperas – compreendendo que cada alma que chega ao porto representa não apenas a si próprio, mas uma categoria ou uma classe de pessoas, e que cada uma delas traz consigo um objeto representativo de seu pecado. Embora seja considerado um “juízo”, cada pessoa na obra tem o poder de escolher o destino de sua alma através dos atos que cometera em vida. Assim, acompanhe o resumo de “Auto da Barca do Inferno” e esteja bem preparado para vestibulares e afins.

A chegada das almas

O primeiro a chegar ao porto é um fidalgo – o qual representa a nobreza. Condenado por luxúria, tirania e outros pecados, recebe do diabo a ordem de que embarque na barca com destino ao inferno. Arrogante, o fidalgo se julga merecedor do paraíso, acreditando que muitas pessoas ficaram sofrendo e rezando por ele, mas o anjo recusa sua entrada e ele entra na barca do inferno.

O segundo passageiro a chegar ao porto é um agiota – personagem responsável por representar pessoas de grande avareza, gananciosas e sem compaixão pelo próximo. Mesmo com suas tentativas de convencer o anjo a deixá-lo embarcar para o céu, acaba sendo impedido e entra na barca do inferno.

Um homem parvo (tido por ingênuo) é o terceiro a chegar, e rapidamente o diabo tenta persuadi-lo a entrar em sua barca. Ao descobrir qual o destino da barca do diabo, o parvo dirige-se ao anjo para lhe perguntar para onde deveria ir, e o anjo, encantando com sua humildade e simplicidade, lhe orienta a embarcar rumo ao paraíso.

Em quarto lugar chega um sapateiro carregando seus instrumentos de trabalho. Tenta enganar o diabo, assim como enganara muitos clientes durante sua vida, e é condenado pelo anjo por ser alguém que roubou pessoas.

Para a surpresa de todos, o quinto passageiro chegara acompanhado. Tratava-se de um frade – um representante religioso – juntamente com sua amante. Ele chega confiante de que teria o perdão, mas é condenado por falso moralismo religioso e obrigado a se dirigir para a barca do inferno.

A sexta a chegar é uma feiticeira e alcoviteira, que prontamente é recebida pelo diabo. Ela lhe diz que os maiores bens que possui são “seiscentos virgos postiços”. Virgo significa hímen, símbolo da virgindade, deixando subentendido que ela já prostituiu muitas moças virgens. “Postiços” indicam que ao menos seiscentos homens foram enganados por ela. Depois dela chegam ainda alguns outros passageiros, os quais em sua maioria são encaminhados para a barca rumo ao inferno.

A crítica social

Pode-se perceber o motivo da obra chamar-se “Auto da Barca do Inferno”, pois dentre as almas chegadas, boa parte precisa embarcar nela, haja vista que trazem consigo objetos terrenos que representam seu apego à vida que tinham, embora não tivesse agido nela como deveriam. O valor educativo da obra é muito forte, sendo uma sátira social implacável, na qual não perdoa as feridas sociais de sua época, lamentando que embora muitas pessoas desejem ir para o paraíso, já perderam suas almas pelas más atitudes que tiveram.