Amor, Verbo Intransitivo

O livro “Amar, Verbo Intransitivo” causou muito impacto na ocasião de seu lançamento por abordar um assunto que a sociedade bem conhecia, mas jamais comentava. Souza Costa é pai de uma típica família da burguesia paulista do início do século XX. Preocupado com a vida do filho Carlos e com os comentários da sociedade, Costa busca uma “professora de amor” para iniciá-lo sexualmente de uma forma que ele considerava ser limpa, sem que o garoto precisasse passar por prostitutas aproveitadoras e “sujas”. Foi quando conheceu Elza, uma senhora alemã – retratada durante todo o livro por Fräulein, que significa senhora em alemão – especializada em dar início à vida sexual dos jovens. Ela lhe afirma com naturalidade que é uma profissional séria e que jamais gostaria de ser tomada por aventureira. Souza Costa contrata seus “serviços” para o filho Carlos e fica definido que, oficialmente, Fräulein seria a professora de piano e alemão da família Souza Costa. É importante frisar que, embora tivesse para si boas intenções, a missão de Souza Costa em iniciar sexualmente o filho de 15 anos fora de um antro de prostituição já se iniciava fracassada, pois Carlos não era mais virgem. Antes que a narrativa se iniciasse, Carlos havia frequentado com amigos uma farra no bairro do Ipiranga, e lá, pressionado pelos colegas, relacionou-se com uma prostituta. Não se pode, no entanto, considerar esse episódio uma completa iniciação sexual, já que fora um ato seco e mecânico, longe do que ele passaria a ter com Elza.

Amar, Verbo Intransitivo

Foto: Reprodução

Investidas para a iniciação sensual do rapaz

Fräulein avista Carlos pela primeira vez e fica surpresa em notar o quanto ele ainda é “menino”, brincando com sua irmã. A alemã fica ressentida ao notar que não consegue prender logo de início a atenção do garoto, que era muito disperso e não enxergava a malícia envolvida na situação. Durante todas as tardes ela lhe dava aulas de alemão, assim o envolvendo e seduzindo sem que ele notasse. Carlos passou a aguardar ansioso pelas aulas com Fräulein, cada vez mais esforçado e dedicado em aprender alemão, sem notar as reais intenções de sua professora. Fräulein aos poucos passa a tocar o garoto discretamente para tentar despertar seus desejos sensuais, mas a ingenuidade dele por muitas vezes a irrita. Ela passa a ser mais constante em seus toques e vira objeto de atração do rapaz, que num dado momento da obra se masturba inspirado na professora – este trecho do livro é escrito de forma extremamente indireta e tangencial, dificultando que seja percebido o que de fato está acontecendo, provavelmente para evitar que o escândalo da época seja ainda maior.

Fräulein intensifica o contato corporal com Carlos, deixando-o assustado, e discretamente o inicia de forma sensual. Com o passar de algum tempo a iniciação sexual se efetiva, pois o jovem passa a frequentar a cama da alemã durante as noites. Dona Laura, esposa de Souza Costa e mãe de Carlos nota que o filho parece nutrir uma idolatria pela alemã e conversa com ela para esclarecer o que está acontecendo, já que não tem real conhecimento da situação. Fräulein naturalmente lhe diz que foi contratada por seu marido para iniciar Carlos sexualmente, chocando a mãe que, embora se sinta contraria, permite a permanência da alemã na casa e a continuidade de seu “trabalho”.

Chega o momento de partir

A alemã passou a exercer na casa o papel de governanta, cuidando da irmã de Carlos quando ela adoece e sentindo-se mãe de todos. Preocupada com os laços afetivos que estava desenvolvendo, ela arma com Souza Costa que a flagre com seu filho. O flagrante é feito quando o rapaz estava com Fräulein em seu quarto numa noite e o pai dá uma bronca ensaiada no filho. A alemã parte, deixando o rapaz de coração partido, o que fazia parte de sua iniciação. O tempo passa, ele a esquece e começa a namorar uma moça. Quando a avista iniciando outro rapaz, cumprimenta-lhe friamente e parte para seus interesses. Ela havia concretizado seu trabalho, Carlos agora era um rapaz iniciado e maduro.

Sobre a obra

A obra “Amar, Verbo Intransitivo” de Mário de Andrade foi lançada em 1927 e é considerado um romance Modernista da primeira fase (entre 1922 e 1930) que seguiu à risca o espírito da “Semana de Arte Moderna” que considerava necessário destruir para construir tudo novamente. De fato, muitos consideram esse livro impregnado de um espírito de destruição considerado até mesmo exagerado. Além desse aspecto, muitos outros chamam a atenção nessa obra, como, por exemplo, a linguagem que é utilizada. Mário de Andrade utilizada uma tida como “errada”, pois tentou imitar em sua escrita a forma brasileira de falar, se afastando do português castiço para apegar-se ao padrão coloquial do povo – sendo algumas vezes bem sucedido e outras não. Trata-se de uma obra para se fazer de conta que está ouvindo e não apenas lendo.

Outro aspecto polêmico desse livro é a gritante contradição de seu título, já que o verbo “amar” é sabidamente um transitivo direto e não um intransitivo. Ainda, a curiosa classificação tida na capa como idílio transmite grande perplexidade, pois idílio transmite uma forma de amor singela e pura, onde não existem dúvidas de reciprocidade entre os personagens. Conforme se segue a leitura do livro, percebe-se não ser este o caso.

O autor deixa transparecer em sua obra uma posição, de certa forma, ambígua, mostrando uma “paixão crítica” por seu povo, em especial pelo paulistano. Embora critique alguns valores brasileiros, segue dizendo que essa é a forma de comportamento nacional, subentendo-se um ar de “este é o nosso jeito, somos assim mesmo”. Da mesma forma, embora elogie o estrangeiro, em especial a força alemã, os desmerece por transmitir deles uma imagem extremamente fria, metódica, como se fossem ineptos ao calor latino, especificamente o brasileiro.

Ainda é interessante notar o emprego constante de digressões que fazem lembrar o estilo machadiano. Muitos elementos formais são utilizados na obra, embora sejam considerados e colocados como à frente de seu tempo, alimentando a característica modernista.