A Rosa do Povo

A Rosa do Povo é um livro de poemas do escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, publicado no ano de 1945. A crítica o considera o melhor de seus livros, o mais extenso (contém 55 poemas, alguns deles longos) e para muitos, de difícil compreensão. Na realidade, a compreensão pode ser facilitada se considerarmos a época em que A Rosa do Povo foi escrita: em meio aos horrores da II Guerra Mundial e da ditadura imposta no Brasil por Getúlio Vargas. A população era oprimida por todos os lados, diante de terríveis relatos de mortes e torturas. Não era possível ser neutro. Ou o indivíduo colaboraria com tudo aquilo, ou se revoltaria e penaria as consequências. Como artista com grande consciência social, Carlos Drummond de Andrade esse seu livro como um instrumento de combate aos horrores que acompanhava. É quase palpável a tensão presente no momento em que o autor escrevia os poemas, utilizando de aguda reflexão sobre o dever poético em um mundo marcado por sofrimento, tragédia e destruição.

A Rosa do Povo

Foto: Reprodução

Os poemas presentes na obra são:

  • Consideração do Poema
  • Procura da Poesia
  • A flor e a Náusea
  • Carrego Comigo
  • O Medo
  • Anoitecer
  • Nosso Tempo
  • Passagem do Ano
  • Passagem da Noite
  • Uma Hora e mais Outra
  • Nos áureos Tempos
  • Rola Mundo
  • Áporo
  • Ontem
  • Fragilidade
  • Poeta Escolhe seu Túmulo
  • Vida Menor
  • Campo,Chinês e Sono
  • Episódio
  • Nova Canção do Exílio
  • Ecônomia dos Mares Terrestres
  • Equívoco
  • Movimento da Espada
  • Assalto
  • Anúncio da Rosa
  • Edifício São Borja
  • O Mito
  • Resíduo
  • Caso do Vestido
  • O Elefante
  • Morte do Leiteiro
  • Noite da Repartidão
  • Morte no Avião
  • Desfile
  • Consolo na Praia
  • Retrato de Família
  • Como um Presente
  • Interpretação de Dezembro
  • Rua da Madrugada
  • Idade Madura
  • Versos à Boca da Noite
  • No País dos Andrades
  • Notícias
  • América
  • Cidade Prevista
  • Carta a Stalingrado
  • Telegrama de Moscou
  • Mas Viveremos
  • Visão 1944
  • Com o Russo em Berlin
  • Indicações
  • Onde Há Pouco Falávamos
  • Os Últimos Dias
  • Mário de Andrade Desce aos Infernos
  • Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin

Acompanhe alguns dos principais poemas da obra:

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

ÁPORO

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.