A Menina Sem Estrela

A Menina Sem Estrela é um livro no qual se encontram reunidas 80 crônicas escritas por Nelson Rodrigues. Além de dramaturgo altamente reconhecido em todo território nacional, tratava-se de um grande escritor, o qual jamais perdia o humor ácido e a leveza mesmo quando precisava falar sobre assuntos pesados. As crônicas esportivas de sua época eram as mais criativas e bem-humoradas já encontradas, o que, junto com outros trabalhos, lhe rendeu grande popularidade.

A Menina Sem Estrela

Foto: Reprodução

Trabalho no jornal

Em 1967, quando já era um autor consagrado, foi convidado pelo jornal carioca “Correio da Manhã” para que lhes escrevessem crônicas de maneira regular. É importante frisar que as crônicas se tratavam de memórias, então não raro se sentirá em A Menina Sem Estrela um texto autobiográfico, mas de contexto muito interessante. Um curioso detalhe é que até mesmo o título da obra faz referência à Daniela, filha de Nelson Rodrigues, que nasceu cega. Como sempre deixara claro, Nelson detestava o óbvio, então não espere uma autobiografia comum, pois ao mesmo tempo em que se apresenta, muda de assunto para lembrar-se de acontecimentos ocorridos na mesma época.

Vida trágica

O autor em questão teve uma vida familiar recheada de tragédias e acontecimentos tristes, o qual ele relata em suas crônicas de forma natural, como o faz na crônica de n° 22, onde relata o sofrimento causado pela morte de seu irmão e a relação deste acontecimento com sua produção artística: “O meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto”. Ainda, se notará durante a leitura que o escritor possui muitas frases de efeito, as quais se tornaram sua marca registrada, como no momento em que falava criticamente sobre a falta de criatividade encontrada em reportagens policiais, quando disse: “A novela dá de comer à nossa fome de mentira”.

A Menina Sem Estrela

Trata-se de uma leitura imensamente rica e cativante, de grande importância literária e que deve ser sempre considerada com carinho seja para o entretenimento quanto para estudo de nossa linguagem e literatura, já que Nelson Rodrigues por diversas vezes é solicitado como autor de obras cuja leitura é obrigatória para a realização de provas de vestibulares e concursos. Confira alguns trechos das crônicas contidas no livro:

Crônica 1

Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia
na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e
suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que
ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general,
enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne.
Mas por que “espiã de um seio só”? Não ponho minha mão no fogo por uma
mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio
solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional.
Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho
mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão
nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara
Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não
do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederico Schmidt? Seu nome ainda tem a
atualidade, a tensão, a magia da presença física. Todavia, deixemos o Schmidt para
depois. O que eu quero dizer é que estas são memórias do passado, do presente, do
futuro e de várias alucinações. […]

Crônica 22

Um dia, Lúcio Cardoso me disse: — “O assassinato de seu irmão Roberto está
naquela cena assim, assim, de Vestido de Noiva”. Era verdade. Eu não sei se vocês se
lembram de Vestido de Noiva. Como todos os meus textos dramáticos, é uma
meditação sobre o amor e sobre a morte. Mas tem uma técnica especialíssima de
ações simultâneas, em tempos diferentes. E, além disso, há, no seu desdobramento,
na sua estrutura, o rigor formal de um soneto antigo.
Já minhas outras peças são muito mais selvagens. Mas o que tocou Lúcio
Cardoso foi uma cena, ainda no primeiro ato, cena de uma mulher matando um
homem. E, segundo o romancista, eu estaria fazendo, ali, uma imitação da vida. Era
Roberto que morria outra vez, assassinado outra vez. E confesso: — o meu teatro
não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na
alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de
Roberto.
Comecei pelo dia seguinte. E não falei da véspera e da antevéspera. Quero
dizer que Roberto sempre me parecera muito mais um suicida. Teve sempre um
olhar, uma atmosfera, um halo de quem vai morrer cedo. Vejam sua obra. Não sei
se já escrevi que ele desenhava a própria cara nos bêbados, loucos e enforcados de
sua ilustração. Lembro-me de uma ilustração: — um homem era esfaqueado; e a
vítima era ele.
A vítima, a vítima. Era sempre ele que morria, assassinado pelos outros. E era
sempre ele que pendia de uma forca; ou se deitava num caixão. Eu tive uma doce tia
que, meses antes de morrer, unia, entrelaçava as mãos. A filha vinha corrigir o gesto
fúnebre. Minha tia perguntava: — “Não é assim que se morre?”. Eis o que eu queria dizer: — também Roberto ensaiou a própria morte.
Morrera antes, e muitas vezes, nas ilustrações, nos quadros, nas esculturas. E
nunca, nunca, em momento nenhum, ele foi o que mata, ele foi o que fere. Era
sempre o morto, sempre o ferido, e sempre o enforcado. Mas repito que jamais
pensei no assassinato. Eu o via muito mais como o suicida (e era belo como o
suicida). […]